Título: Israel se irrita com convite russo ao Hamas
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Fonte: O Estado de São Paulo, 11/02/2006, Internacional, p. A26
O ministro israelense dos Transportes, Meir Sheetrit, acusou ontem o presidente russo, Vladimir Putin, de "esfaquear Israel pelas costas" pelo fato de ter convidado os dirigentes do grupo islâmico Hamas a visitar a Rússia. Putin rompeu com a posição dos EUA e da União Européia (UE). Americanos e europeus decidiram não negociar com o Hamas enquanto o grupo não reconhecer Israel e renunciar à violência - algo que os líderes palestinos vêm repetindo que não farão. O Hamas venceu as eleições parlamentares de janeiro e deve formar o novo governo palestino provavelmente ainda este mês.
Ontem a secretária americana de Estado, Condoleezza Rice, telefonou ao ministro da Defesa russo, Serguei Lavrov, para pedir-lhe que envie ao Hamas a forte mensagem de que deve pôr fim aos atentados terroristas. Segundo um porta-voz do Departamento de Estado, Lavrov garantiu a Condoleezza que fará isso. Lavrov afirmou à imprensa, porém, que acredita que, cedo ou tarde, um grande número de países será favorável aos contatos com o Hamas. A intervenção russa irritou Israel, que se empenha em isolar o Hamas. Em declarações à Rádio Israel, o ministro Sheetrit, qualificou a decisão de Putin de "escândalo internacional" e defendeu a exclusão da Rússia de qualquer participação na mediação do conflito com os palestinos.
O convite feito por Putin na quinta-feira - logo aceito pelo Hamas - foi interpretado por analistas políticos como uma nova tentativa de Moscou de assumir um papel mais influente como mediador no conflito.
A Rússia integra o chamado quarteto de mediadores para o Oriente Médio, ao lado dos EUA, UE e ONU. Na semana passada, o quarteto fez um chamado ao Hamas para que renuncie à violência e reconheça Israel. Mas ao contrário do bloco europeu e dos americanos, o governo russo não classifica o Hamas como grupo terrorista. Ontem, o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da França, Denis Simonneau, afirmou que a Rússia não consultou seus parceiras internacionais sobre a iniciativa, mas ele elogiou o convite ao Hamas. "Acreditamos que esta é uma ação que pode contribuir para o avanço de nossas posições (do quarteto)", disse Simonneau.
A delegação do Hamas será encabeçada pelo chefe do birô político do grupo, Khaled Meshal, que vive em Damasco.
SEQÜESTRO
Um desconhecido grupo palestino, as Brigadas al-Ahrar (Brigadas dos Homens Livres), assumiu ontem a responsabilidade pelo seqüestro do adido militar egípcio na Faixa de Gaza, Hussam Almousaly, e exigiu, para soltá-lo, a libertação dentro de 48 horas de todos os palestinos presos no Egito. O comunicado foi divulgado pela TV árabe Al-Jazira, do Catar, que mantém uma sucursal em Gaza.
Almousaly foi capturado na cidade de Gaza em plena luz do dia, em nova demonstração da falta de segurança no território, controlado integralmente desde setembro pela Autoridade Palestina. Os principais grupos palestinos, incluindo o Hamas e a Fatah, condenaram o seqüestro.