Título: RIC, o BRIC sem Brasil. Assim não dá!
Autor: Roberto Macedo
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/03/2006, Espaço Aberto, p. A2

A sigla BRIC é utilizada internacionalmente para designar o grupo de países constituído por Brasil, Rússia, Índia e China. Entre os emergentes, são grandalhões que chamo de "baleias", em contraposição aos "tigres" asiáticos (Coréia do Sul, Taiwan, Hong Kong, Malásia e Cingapura), menores e marcantes pela sua agilidade.

Embora o Brasil ainda impressione pelo tamanho, desaponta há mais de duas décadas ao ficar para trás numa corrida em que vale mais a velocidade, medida usualmente pela taxa anual de crescimento do produto interno bruto (PIB) de cada país. Se for bem alta por várias décadas, ela pode tirar países e suas populações da pobreza, mesmo que partam de condições muito frágeis no início da arrancada.

Nos últimos 25 anos, a economia brasileira cresceu à medíocre taxa média de 2,6% ao ano, próxima de metade (!) da que mostrou entre 1920 e 1980. Enquanto isso, os demais países do grupo BRIC cresceram bem mais. Assim, desde 1980 a China revela taxas em torno de 10% ao ano e a Índia fica perto de 6%. Com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, para a Rússia os dados mais antigos ou não são disponíveis ou não são confiáveis. Estatísticas do Banco Mundial mostram o crescimento do PIB russo apenas desde 2000, a uma taxa anual média próxima de 7%.

Com esse cadastro do BRIC manchado pelo Brasil, não é surpresa perceber que nas publicações internacionais já surjam referências que excluem o nosso país como destaque, mencionando apenas Rússia, Índia e China, o grupo RIC. Próxima da palavra rico, essa sigla também é mais adequada para quem caminha mais rapidamente nessa direção, ainda que pelas estradas poeirentas da condição atual. Nelas o Brasil hoje come poeira levantada por esses e muito mais países à sua frente.

Na edição de 21 de janeiro da revista The Economist percebi uma exclusão mais sutil, mas não menos grave, pelo que indica. Matéria voltada para realçar a crescente importância mundial dos países emergentes foi ilustrada com desenho no qual três bichos representam os países do RIC a envolver o globo terrestre. A China foi representada por um dragão; a Índia, por um elefante; e a Rússia, por um urso.

É possível que o desenhista não tenha identificado um bicho para representar o Brasil, no que revelou não ser argentino, caso em que provavelmente optaria por um macaco. Mas, no Brasil de hoje, seria uma injustiça com esse bicho, que, entre outros aspectos, é muito ágil e capaz de imitar alguns comportamentos humanos. Assim, muito lento, o Brasil não consegue imitar a trinca do RIC. De qualquer forma, esta não é uma época boa para escolher o bicho nacional. Pode dar burro ou bicho-preguiça. Ou uma baleia, encalhada na praia.

Como sair desse vexame? Entre os economistas, crescer com vigor é o tema do momento, e deveria sê-lo também da sociedade em geral. Nessa linha, há à frente uma ótima oportunidade para alçá-lo ao topo das preocupações nacionais, a campanha eleitoral para a Presidência da República, com seus debates e a renovada esperança de que o País encontre alguém capaz de liderá-lo na busca de um crescimento satisfatório como esse dos países do RIC. Nem é preciso ir tão longe, pois, aqui perto, desde 1990 o Chile cresce próximo de 6% ao ano.

Seria ingênuo esperar que a sociedade como um todo se aprofundasse nas complexidades do processo de desenvolvimento econômico, muito menos em temas correlatos usualmente colocados de forma incompreensível para os leigos, como ajuste fiscal, taxa de investimento, reformas microeconômicas e o tal "cenário favorável aos negócios". Assim, seria fundamental que os candidatos colocassem suas propostas e a exeqüibilidade delas de uma forma compreensível e capaz de gerar esperança, apoio e entusiasmo da população, indispensáveis para executá-las no intrincado quadro da política brasileira.

Por sua vez, a sociedade também pode fazer muito, começando por não cair no logro daqueles que acham que a economia vai bem, pois bem mesmo ela só foi para a segunda ou terceira divisão do campeonato mundial de crescimento econômico. Isso numa situação agravada, porque nos últimos anos esse campeonato esteve extremamente favorável para países como o Brasil, que, entretanto, não soube aproveitar a oportunidade para acelerar seu crescimento. Além disso, é hora de dispensar técnicos e cartolas, inclusive o maior deles, desse time de perdedores no qual poucos se salvam, como o ministro Furlan, do Desenvolvimento, com seu enorme esforço para cuidar bem de sua área, ainda que muitas vezes sob "fogo amigo". É elogiável também a sua sinceridade, pois ainda ontem neste jornal admitia que o Brasil perdeu seu melhor momento para impulsionar o crescimento de sua economia, embora se revelando esperançoso de que uma janela permanece aberta para tanto.

Também ajudaria muito se a sociedade verberasse com veemência sua indignação ou mesmo revolta diante dessa humilhante e desastrosa lentidão econômica que vem sacrificando gerações inteiras de brasileiros. Isso por falta de oportunidades adequadas para o seu desenvolvimento pessoal mediante segura inserção na força de trabalho, com rendimentos bem acima dos aviltantes que se vêem atualmente, e perspectivas bem assentadas de contínua melhoria no futuro.

E, ainda, cobrasse desempenho da nossa classe política, em última análise a grande responsável por esse estado de coisas, pois, afinal, é ela que vem pilotando o barco.

Em linguagem simples, é preciso gritar: assim não dá!