Título: Governo otimista, mercado cético
Autor: Fabio Graner, Lu Aiko Otta
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/02/2006, Economia & NEegócios, p. B10

Equipe econômica espera um crescimento do PIB de até 5% para este ano; no mercado, apostas vão até 3,5%

O mercado ainda duvida, mas o governo está cada vez mais convicto de que a economia vai crescer este ano de 4,5% a 5%. Fontes da área econômica ouvidas pelo Estado avaliam que o Brasil reúne as condições para crescer com forte intensidade e tornar mais do que discurso a previsão feita pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci, de que o País vai caminhar em ritmo semelhante ao de 2004 - quando avançou 4,9%. No mercado, embora todos apostem na expansão, o otimismo é bem mais contido. Tanto que o relatório Focus do BC mostra, há 40 semanas, que a expectativa média das instituições pesquisadas para o crescimento deste ano está inalterada em 3,5%.

Para o governo, vários fatores confirmam a visão de um crescimento mais acelerado em 2006, acima da média dos países latino-americanos, que farão este ano ajustes que o Brasil fez em 2005. O processo de redução do juro básico, iniciado em setembro, é apontado como o primeiro deles. "Isso só é possível porque, depois de alguns sustos, a inflação está dentro da trajetória da meta de 4,5% para este ano", afirmou uma fonte do Ministério da Fazenda.

Outra questão importante é a diluição dos efeitos da crise política que prejudicaram a confiança do consumidor no ano passado, freando o consumo e a produção. "Agora, a situação dos estoques está melhor", disse a fonte.

O crescimento de 5% na renda em 2005 e o nível historicamente baixo de inadimplência também são apontados como fatores importantes. Além desses elementos, a Fazenda avalia que a redução no nível de utilização da capacidade instalada e a recuperação dos investimentos no fim do ano passado tornam mais plausível a aceleração do crescimento sem pressões inflacionárias.

Medidas como o aumento do salário mínimo para R$ 350, a elevação do crédito e a desoneração do setor da construção civil também são consideradas, pelo governo, combustíveis importantes para o crescimento.

Por fim, o governo argumenta que o forte crescimento da produção industrial em dezembro já mostra que o País está em ritmo acelerado para 2006. Somado à expectativa de uma melhora na agricultura, que teve desempenho sofrível em 2005, da continuidade da bonança no mercado externo, e de um relaxamento fiscal dos Estados e municípios, que fizeram caixa no ano passado e tendem a gastar mais no ano eleitoral, esses fatores consolidam as expectativas favoráveis. "Com isso, imagino que o próprio mercado começará a rever suas projeções de crescimento, convergindo para números mais próximos do governo", afirmou a fonte.

O economista Paulo Mól, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), concorda com a avaliação de que o crescimento será puxado pela demanda interna. O ganho real dos salários e o reajuste do mínimo, aliados à queda do juro, ajudarão a puxar a produção. Mas isso só deverá acontecer a partir de abril ou maio. Por enquanto, as indústrias ainda têm estoque e pretendem manter a produção baixa. A CNI prevê um crescimento de 3% do PIB este ano e não pretende rever o cálculo diante da produção industrial de dezembro, que surpreendeu positivamente ao atingir os 2,3%.

Caio Meghali, economista da Mauá Investimentos, não acredita que o mercado elevará suas estimativas de crescimento. Para ele, o governo está excessivamente otimista. "O governo iniciou o ano passado esperando mais 5% de crescimento, e no final vai ter apenas 2,5%", disse.

A economista do banco ABN Amro Zeina Latif acha que a explicação para uma posição mais conservadora do mercado se deve ao setor externo e aos investimentos. Segundo ela, os analistas privados esperam uma contribuição menor da balança comercial para a economia.