Título: Plataforma P-50 entra em campo e Brasil chega à auto-suficiência
Autor: Nicola Pamplona
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/02/2006, Economia & Negócios, p. B4,5
Produção de petróleo já ultrapassa o consumo, mas operação do novo equipamento vai consolidar esse quadro
Enquanto a Petrobrás prepara a festa da conquista da auto-suficiência na produção de petróleo, o Brasil já sente o sabor de ser independente do mercado internacional. Segundo a Petrobrás, a produção de dezembro de 2005 já foi superior ao consumo e a tendência é que essa relação se mantenha equilibrada até a entrada em operação da plataforma P-50, no início de abril, quando o País atingirá o que a estatal chama de auto-suficiência sustentável, que vai garantir uma folga maior entre produção e consumo.
De acordo com dados da Petrobrás, a produção nacional de petróleo tem oscilado entre 1,75 milhão e 1,85 milhão de barris por dia nos últimos meses, enquanto a média diária de consumo de combustíveis gira entre 1,75 milhão e 1,8 milhão de barris. A meta da empresa é terminar o ano com a produção média de 1,91 milhão de barris por dia, crescimento que será obtido com a entrada da P-50 e de outras três plataformas de menor porte.
A Petrobrás prefere a cautela e não confirma que o Brasil já atingiu a auto-suficiência, mas admite que em determinados meses o volume de produção ultrapassa o consumo. "Precisamos de uma relação produção/consumo que se mantenha no médio prazo e não de uma auto-suficiência pontual, como temos hoje", explica o diretor de Abastecimento da estatal, Paulo Roberto Costa. A empresa recebeu a P-50 na sexta-feira e agora inicia os testes de certificação da unidade junto à Marinha.
A plataforma deve atingir seu pico de produção, com 180 mil barris por dia, seis meses depois de instalada sobre a jazida de 500 milhões de barris do campo de Albacora Leste, na Bacia de Campos (RJ). Mas, mesmo que a auto-suficiência sustentada ainda não tenha chegado, o Brasil já pode comemorar uma redução extraordinária dos níveis de dependência no suprimento de petróleo.
Segundo levantamento feito pelo Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), em 2005 apenas 4% do abastecimento nacional foi feito por importações. Em 1979, época do segundo choque do petróleo, por exemplo, a dependência do mercado externo atingiu o maior nível, de 86%.
Costa adianta que o principal benefício da conquista será a reversão da balança comercial do setor, que chegou a apresentar déficits de US$ 10 bilhões nos anos 80 e este ano deve fechar com superávit de US$ 3 bilhões. "Já tivemos superávits em meses isolados, mas é a primeira vez que vamos fechar um ano inteiro com resultado positivo", aponta o diretor da Petrobrás.
O planejamento estratégico da empresa prevê crescimento anual do consumo de 2,6%, que, se confirmado, não ameaçará a sustentabilidade da conquista.
O plano, porém, está sendo revisto e o mercado acredita que o baixo crescimento econômico e a difusão de combustíveis alternativos pode levar a uma redução das expectativas. "Se o Brasil crescer muito, teremos que correr para manter a auto-suficiência no longo prazo", alerta o geólogo Giuseppe Bacoccoli, professor da UFRJ e ex-funcionário da estatal.
Há até uma facção no mercado que acredita que a desaceleração nas vendas de combustíveis tenha contribuído para que a relação produção/consumo de petróleo tenha atingido o equilíbrio tão cedo.
No ano passado, segundo dados do Sindicato das Empresas de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom), as vendas de combustíveis apresentaram crescimento de apenas 1%. Para o professor do Ibmec, Cláudio Considera, o fator consumo tem sido mais importante que o crescimento da produção que, em sua opinião, foi "medíocre" nos últimos anos.
Bacoccoli lembra que o consumo de petróleo no Brasil é de apenas 4 barris por habitante por ano, três vezes menor que em países como Espanha e Itália, que também não enfrentam invernos muito rigorosos.
"Se o brasileiro consumisse como o espanhol, precisaríamos de três vezes mais petróleo", destaca ele, lembrando, porém, que os biocombustíveis, notadamente o álcool, e a hidreletricidade, têm papel importante nesse cálculo.
De qualquer forma, Costa defende que a auto-suficiência é fruto de um trabalho de mais de 50 anos, que levou o Brasil à elite da tecnologia no setor, ao lado de gigantes como Shell e Total. Mesmo que em alguns momentos a Petrobrás tenha sido desestimulada a continuar, completa o engenheiro José Marques Neto, que ocupou a Diretoria de Exploração e Produção da empresa no fim da década de 70, quando a Bacia de Campos começava a ser descoberta.
"Havia uma descrença quase universal na competência da Petrobrás para desenvolver atividades off-shore (marítimas)", recorda ele.