Título: 'Governo iraniano traiu o seu povo'
Autor: Reali Júnior
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/02/2006, Internacional, p. A14

Entrevista Abolhassan Bani Sadr: ex-presidente do Irã

"O homem forte não reage, age. Toda reação corresponde a uma fragilidade humana", afirmou o primeiro presidente eleito da República Islâmica do Irã, Abolhasssan Bani Sadr, sobre a sugestão feita por um jornal de seu país para que o mundo muçulmano responda à crise causada pela publicação das caricaturas de Maomé com outras sobre o Holocausto. Bani Sadr é hoje um dos líderes entre os intelectuais da oposição ao regime dos aiatolás iranianos e vive na França desde que, em 1981, foi obrigado a fugir do país, após 18 meses no poder. Sua deposição foi acelerada quando perdeu o apoio do aiatolá Khomeini, o guia espiritual supremo que acompanhava já nos tempos dos preparativos da Revolução Islâmica. Tido como opositor moderado, ele lembra que o jornal de Teerã que publicou a proposta representa uma minoria radical. Na entrevista exclusiva ao Estado, Bani Sadr concentrou suas críticas no regime iraniano, responsabilizando-o diretamente pela envio do caso do Irã da Agência Internacional de Energia Atômica AIEA) para o Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A reação do mundo muçulmano à publicação das caricaturas de Maomé o surpreendeu?

A meu ver, esse foi um grande erro, pois dos dois lados encontramos provocadores. De um lado, um presidente fundamentalista, George W. Bush, e do outro uma minoria radical islâmica. Quando deixei o Irã o problema era o mesmo entre Khomeini e Ronald Reagan. Hoje, tem muita gente que acha que isso é uma provocação dos EUA e seu aliado saudita para evitar que os europeus se envolvam nas negociações do Oriente Médio. Na Europa, fala-se de liberdade de expressão, mas desde quando insultar corresponde à liberdade. As caricaturas deveriam ser uma expressão de idéias, mas têm sido uma expressão de violência, uma liberdade apenas unilateral. Quando ocorre uma reação como a que estamos vendo já não se trata de idéias, de liberdade, nem de liberdade de reagir aos insultos, mas passa a ser apenas a expressão de violência e até de terrorismo. Os muçulmanos que se manifestam nas ruas constituem um pequeno número, pouco representativo, uma minoria que desenvolve um discurso de violência. Não podemos considerá-los defensores do profeta nem do Islã. Temos no Irã também um outro discurso, o da liberdade. Esse seria o discurso mais adaptado e mais eficaz para responder ao das caricaturas, não o da violência.

Como analisa , nesse contexto de conflito, a tentativa do governo iraniano de busca do controle total do ciclo nuclear, incluindo o militar?

Os radicais iranianos são hoje uma minoria muito dividida. Antes havia uma frente, onde se encontravam as grandes tendências, autoritárias e reformistas. Agora, mesmo a tendência autoritária está dividida. Desde que Mahmud Ahmadinejad tornou-se presidente e Ali Khamenei (líder supremo) controla o conjunto do Estado, a crise atômica tornou-se aguda.

Quem era Ahmadinejad no seu tempo de presidente?

Um ativista estudantil sem nenhuma expressão. Ele foi agente de Khamenei durante a tomada da embaixada dos EUA. Ele desmentiu ter sido um dos líderes da ocupação, mas não desmentiu ter estado lá. Esse regime não poderia ter deixado a situação se deteriorar a esse ponto, pois poderia ter chegado a um acordo sobre três pontos fundamentais para negociar uma saída. Primeiro, exigindo o compromisso dos países que possuem a arma nuclear de não atacar o Irã. Segundo, a liberação pelos EUA dos US$ 14 bilhões de dinheiro iraniano depositados em bancos americanos e ilegalmente bloqueados. Finalmente, a supressão de todas as sanções contra o Irã. Mas tudo isso teria de fazer parte de uma negociação com os americanos e não com os europeus. Não obter um acordo foi um enorme erro político e econômico. Os EUA, que estiveram isolados no Conselho de Segurança durante a crise iraquiana, hoje lideram uma frente unida contra o Irã, um país isolado pelo conjunto dos Estados que podem decidir, os membros permanentes do conselho. Bush tem todas as armas para pressionar o regime e o destino do país está nas mãos do Conselho de Segurança. Atualmente, a maioria dos americanos é favorável a sanções contra o Irã e mesmo ataques militares. Por isso, qualifico o ato do governo iraniano como uma grande traição ao povo ao deixar a crise ir até onde foi, isolando o Irã do resto mundo.

Quem atualmente apóia o Irã no mundo. Quais são os seus aliados?

Venezuela, Síria e Cuba. Fora Síria, os outros dois, não são a favor do Irã, mas sim contra os EUA. Os países árabes têm aumentado sua pressão sobre os EUA para que o Irã seja obrigado a interromper seu desenvolvimento nuclear.

Quais as conseqüências mais imediatas da crise atual para o país?

Trata-se de um desastre político e econômico. Ninguém sabe o que a ONU vai decidir. O governo tem feito muita propaganda dizendo que a presença da Rússia e da China é uma garantia, mas essa não é a minha opinião. Existem precedentes. Esses cinco membros permanentes foram os que votaram o fim da Guerra Irã-Iraque, resolução 198 da ONU. Todos sabem hoje o perigo que ameaça o Irã.

Mesmo com um quadro pessimista, qual poderia ser o melhor caminho para o Irã desenvolver sua indústria atômica civil?

Para desenvolver a indústria nuclear civil o governo do Irã não tem necessidade de 20 anos de trabalhos secretos. Seu plano é possuir vários reatores e ter capacidade de enriquecimento de seu próprio urânio. Para que isso se torne economicamente viável seriam necessários uns 40 reatores. Ora, o Irã não possui até agora nenhum. É preciso também lembrar que se trata de um país onde ocorrem tremores de terra e tem fronteiras muito expostas com Iraque e Afeganistão. O Irã não tem como justificar para a opinião pública nacional e internacional essa política nuclear, onde já foram gastos mais de US$ 9 bilhões. Isso prova também muita corrupção por se tratar de um setor sem o mínimo controle. Ninguém sabe onde eles gastaram tanto dinheiro para nenhum resultado.

O sr. considera que o Irã possa contribuir para desestabilizar ainda mais a região. Por exemplo, agravar a crise no Iraque, a questão israelense-palestina, as pressões contra a Síria e, agora, a crise das charges?

Não acredito. O governo do Iraque já mandou um recado dizendo que o Irã não deve contar com seu apoio nessa circunstância para qualquer iniciativa. A situação no Afeganistão também não permite. Esse regime não tem condições para preparar sequer uma resistência no interior do Conselho de Segurança. Economicamente a situação é grave. O orçamento prevê um aumento de despesas de 56%. Constata-se atualmente uma forte fuga de capitais, e uma evasão de recursos humanos - 150 mil técnicos que deixam o país. Como se vê, esse regime não está organizando uma resistência, mas sim preparando uma submissão.