Título: Mantega deixa mercado apreensivo
Autor: Renée Pereira
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/03/2006, Economia & Negócios, p. B1

A indicação de Guido Mantega para substituir o todo-poderoso ministro da Fazenda Antonio Palocci era uma das hipóteses mais cogitadas - e também mais temidas - pelo mercado financeiro. A preocupação, no entanto, não está no curto prazo, já que poucos acreditam numa mudança radical na política econômica neste ano, com Lula lutando para se reeleger e o candidato tucano, Geraldo Alckmin, comendo pelas bordas seu apoio na área financeira e empresarial.

O olhar de economistas e analistas vai além de 2006. Está no próximo governo e numa possível permanência de Mantega na Fazenda, se o PT ganhar as eleições. "Se Mantega continuar na Fazenda, as chances de a política econômica mudar são grandes", afirmou o economista da MCM Consultores. Antônio Madeira. Para ele, a tendência é que subam os prêmios pedidos pelos investidores para comprar papéis com prazos mais longos.

A apreensão cresce com as dúvidas sobre a composição da equipe de Mantega: e nesse aspecto, a saída do secretário-executivo Murilo Portugal, o preferido do mercado para o lugar de Palocci, é um complicador.

O temor é que Mantega assuma no ministério um viés mais intervencionista, mais heterodoxo, com defesa de maiores quedas dos juros e aumento dos gastos públicos, avalia a analista da Tendências Consultoria Integrada, Alessandra Ribeiro. Segundo ela, um dos testes de Mantega será a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), já que ele é um crítico ferrenho à política de redução a conta-gotas da Selic adotada pelo Banco Central (BC).

Na avaliação do economista e sócio da Costa Rego e Associados, Luiz Carlos Costa Rego, Mantega terá de mudar a atitude para não estressar o mercado. "Ele sempre se disse contra as taxas de câmbio e juros que estão aí e seu pedido tem sido para que a TJLP seja reduzida. Mantega joga no time da Dilma Rousseff (ministra-chefe da Casa Civil), adepta da política desenvolvimentista."

Para o economista-chefe da corretora Fator, José de Lima Gonçalves, o mercado vai demorar um pouco mais para digerir a indicação de Mantega e pode ter alguns dias bastante voláteis. Mas pelo menos agora tem algo definido, ao contrário do que ocorreu ontem. Durante quase todo o dia, o mercado operou sem rumo. Primeiro esperou a queda de Palocci, depois acreditou na continuidade do ministro, até que, no início da noite, veio o anúncio de sua saída e a substituição por Mantega. Com tanta indefinição, os ativos oscilaram fortemente.

O economista-chefe do Banco WestLB do Brasil, Adauto Lima, acredita que Mantega não fará nada muito diferente de Palocci. Uma dúvida, no entanto, é sobre a continuidade de projetos já em andamento, como a redução de alíquota para importados.