Título: Gripe aviária pode causar estrago na economia mundial
Autor: João Caminoto
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/03/2006, Economia & Negócios, p. B10

Queda no PIB mundial, aversão ao risco, fuga de capitais, barril de petróleo a US$ 40 e empresas de seguros e aviação comercial em apuros. Essas poderão ser algumas das conseqüências na economia global caso o H5N1, o vírus da gripe aviária, se torne transmissível entre humanos, possibilidade que virologistas consideram inevitável. Diante do espectro da epidemia, economistas tentam avaliar qual seria seu impacto.

O Banco Mundial estima que uma epidemia entre os humanos reduziria o crescimento do PIB mundial em cerca de 2%. Segundo um estudo do Deutsche Bank, uma epidemia entre moderada e severa causaria entre 14 milhões e 70 milhões de mortes no mundo, reduzindo o PIB europeu entre 2% e 4%.

Segundo os analistas, enquanto o H5N1 se mantiver no estado atual, o impacto econômico deverá ser similar a eventos como o da doença da vaca louca, que reduziu a economia mundial entre 0,25% e 0,50%.

"Entretanto, uma epidemia mais virulenta teria sérias implicações para os mercados de energia", afirmaram os economistas do Deutsche. "O aumento da aversão ao risco nos mercados financeiros provavelmente provocaria a fuga de capitais dos países altamente endividados, como os Estados Unidos e outras nações do bloco do dólar, e a repatriação para a Suíça e Japão."

Uma epidemia também reduziria em pelo menos US$ 20 o atual preço do barril do petróleo, que está acima dos US$ 60. Diante da menor atividade econômica global, a oferta da commodity superaria o consumo com folga, eliminando boa parte do prêmio de risco anexado aos preços atualmente.

O movimento na aviação comercial - responsável por 7% do consumo mundial de petróleo - também seria fortemente afetado, ajudando a reduzir o preço da commodity.

MORTES

A agência de classificação de risco Fitch Ratings afirma que a indústria de seguros e resseguros seria a mais atingida financeiramente por uma epidemia da gripe aviária. "Todo o setor seria afetado por quedas no mercado de investimentos que acompanhariam uma epidemia", disse a agência. "Mas embora esse efeito possa significativo, se a epidemia tiver vida curta, o impacto deverá ser temporário."

Lauren Kalinowski, analista da Fitch, observou que a situação financeira das seguradoras será agravada se o vírus H5N1 se tornar transmissível entre humanos. "As empresas mais afetadas seriam as com concentrações de risco de mortalidade."

Com base em várias estimativas de especialistas, a Fitch calcula que uma epidemia da gripe aviária causaria 400 mil mortes na Europa e 209 mil nos Estados Unidos. Com isso, o pagamento de apólices aumentaria até cerca de US$ 35 bilhões no mercado europeu e US$ 18 bilhões no americano. "É difícil se avaliar o quanto do risco seria repassado para as resseguradoras, mas provavelmente seria uma soma substancial", afirmou.

Entretanto, a agência avalia que esse aumento nos pagamentos seria tolerável para a indústria de seguros. "Algumas empresas, porém, seriam mais afetadas do que outras."