Título: RS rompe com Via Campesina e caça culpados
Autor: Angela Lacerda
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/03/2006, Nacional, p. A12,13

Empresas de quatro Estados e do Paraguai forneceram 37 ônibus para a ação na Aracruz

O governador em exercício do Rio Grande do Sul, Antônio Hohlfeldt (PMDB), anunciou ontem o rompimento de qualquer negociação, em todas as instâncias do governo gaúcho, com a Via Campesina. "Uma instituição cujos membros não convivem democraticamente não merece", justificou.

Ainda ontem, a delegacia de Barra do Ribeiro, onde fica o laboratório da Aracruz depredado na quarta-feira por militantes da Via, abriu inquérito sobre o caso. Já foram ouvidos dois vigias feitos reféns e imobilizados durante a ação - liderada por invasoras, por causa do Dia Internacional da Mulher.

A procedência de algumas empresas que cederam os 37 ônibus usados na invasão já foi identificada: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Paraguai. Duas delas, procuradas pela Rádio Gaúcha, informam que não houve contrato para a cessão nem foram enviadas listas dos passageiros para as autoridades.

Punir os responsáveis não será tarefa fácil - os integrantes da Via que estavam em Porto Alegre começaram ontem a voltar para as suas cidades.

Apesar disso, o delegado regional de Camaquã, Rudymar de Freitas Rosales, diz que imagens gravadas pelas operadoras de rodovias e emissoras de TV levarão à identificação dos responsáveis. A polícia quer enquadrá-los por vandalismo, seqüestro e cárcere privado.

A depredação do laboratório e destruição das mudas que estavam sendo pesquisadas na Aracruz provocaram manifestações de repúdio mesmo de tradicionais aliados dos sem-terra. O Diretório Estadual do PT, presidido pelo ex-governador Olívio Dutra, e o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, repudiaram o ato. Por nota, a Executiva do PT lembrou que sempre denunciou a violência contra trabalhadores rurais e considerou "equivocada" a invasão.

Rossetto, que já havia criticado a invasão, voltou a se manifestar ontem, em tom mais duro. "É inaceitável substituir o argumento pela destruição violenta e a troca de idéias pela intolerância." E completou: "Atos como esse devem ter suas conseqüências tratadas com rigor no âmbito do Judiciário."

As invasoras foram defendidas pelo frade franciscano e deputado estadual Sérgio Gõrgen (PT). Ele disse que talvez as gerações futuras sejam gratas ao gesto "corajoso".

DESPEJO

A Brigada Militar gaúcha reforçou ontem o policiamento ao redor do acampamento montado pelos sem-terra dentro da Fazenda Coqueiros, em Coqueiros do Sul, invadida em 28 de fevereiro. É o início da operação para desocupar a propriedade rural, como determinou no sábado a Justiça.

FÓRUM

O fórum Terra, Território e Dignidade, paralelo à Conferência Internacional sobre Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural (CIRADR), terminou pedindo que os governos assumam a tarefa de fazer a reforma agrária e priorizem a função social da terra e a necessidade de produzir alimentos. Os 150 delegados de organizações de 67 países que participaram do encontro emitiram um documento no qual também condenam a privatização da terra, de zonas costeiras e da biodiversidade.