Título: Os vencedores contam a história
Autor: José Maria Mayrink
Fonte: O Estado de São Paulo, 26/03/2006, Nacional, p. A8
Da derrubada de Goulart à anistia, oficiais e civis falam sobre terror, repressão, tortura, ditadura e revanchismo
Oficiais e civis que participaram da conspiração para a derrubada de João Goulart reconstituem a história do golpe militar, 40 anos depois, sob o ponto de vista dos vencedores, em mais cinco volumes da História Oral do Exército, completando uma coletânea que, no total de 15 volumes, reúne 247 depoimentos em 4.700 páginas.
Ameaça comunista, quebra de hierarquia, eleição de generais presidentes, ditadura, terrorismo, censura à imprensa, tortura, anistia, revanchismo... Os participantes do movimento de 1964 discutem as questões mais polêmicas dos 21 anos do regime autoritário, para oferecer "ao exame de todos os brasileiros o que há do outro lado da colina".
Lançada pela Biblioteca do Exército Editora, a obra pretende dar a palavra àqueles que se mantinham calados, enquanto "assaltantes, seqüestradores, terroristas, desertores agora são regiamente abonados", nas palavras dos autores. A coletânea sobre o movimento armado de 1964, observa o coordenador geral da edição, general Aricildes de Moraes Motta, "visa a tornar mais conhecido o processo revolucionário, especialmente pela palavra daqueles que agora ganham a oportunidade de expor suas motivações, identificar seus propósitos e narrar suas ações".
Em resposta a perguntas recorrentes sobre a origem da conspiração, os acertos e os erros do regime, a maioria dos entrevistados defende quase sem restrições a deposição de Jango, a cassação de mandatos políticos, os atos de exceção e até os excessos ou "desvios" da repressão no combate ao terrorismo. "Talvez tenham acontecido alguns exageros desnecessários, embora a iniciativa da violência tenha partido do pessoal de esquerda", admite o general Décio Barbosa Machado, ex-chefe da 2ª Seção (informações) no III Exército, atualmente Comando Militar do Sul.
Depoimentos de comandantes e agentes que participaram da repressão insistem na versão de que presos dados como mortos, em conseqüência de supostas torturas, na verdade se suicidaram ou foram vítimas de acidentes ou de tiroteios. É o caso do coronel Audir Santos Maciel, ao falar do jornalista Vladimir Herzog, que foi encontrado morto nas dependências do DOI-Codi, que ele comandava em outubro de 1975.
"Hoje, a imprensa publica, como subsídio para exame de vestibular, encarte em que Vladimir Herzog foi preso e, após uma noite de torturas, amanheceu enforcado", disse Maciel, em entrevista gravada em março de 2002. Segundo o coronel, Herzog se apresentou para depor às 8 horas da manhã e se enforcou, numa sala isolada, depois do almoço.
O general Niaze Almeida Gerude, que em 1964 era major e aluno da Escola de Comando e Estado-Maior, atribui à criação do DOI-Codi a eficiência da repressão. Para Orestes Raphael Rocha Cavalcanti, que serviu no DOI-Codi de São Paulo, o tratamento dado aos presos desmente aqueles que acusam militares de terem praticado a tortura.
"Até a esposa do nosso comandante, do então major Carlos Alberto Brilhante Ustra, ia lá dentro do xadrez, muitas vezes, para conversar com as moças que estavam presas e passeava com elas no pátio". Isso prova, segundo o oficial, tenente-coronel da reserva, que o DOI "não perdeu o seu lado humano, apesar de ter enfrentado os mais perigosos terroristas".
Ditadura e anos de chumbo, alegam vários entrevistados, são termos criados pelos "revanchistas" para desmoralizar as Forças Armadas. Para o coronel Ernesto Gomes Caruso, que em 1964 era tenente em Jundiaí (SP), "milhões de brasileiros dariam tudo para a volta do Brasil aos generais de 1964, particularmente sob os aspectos moral e administrativo". Mesmo que se tratasse de um governo autoritário. "Se a ditadura fosse um mau regime, Getúlio Vargas não teria voltado nos braços do povo, depois do Estado Novo", afirma.
O coronel Caruso e o general Raymundo Maximiano Negrão Torres, autor de cinco livros sobre 1964 - entre os quais Nos Porões da Ditadura e O Fascínio dos Anos de Chumbo, todos em defesa do regime - dedicam boa parte de suas entrevistas aos três primeiros volumes - A Ditadura Envergonhada, A Ditadura Escancarada e A Ditadura Derrotada - da obra do jornalista Elio Gaspari sobre o movimento militar. Depois de lembrar o passado político de esquerda do autor, os oficiais questionam a credibilidade de suas fontes, atribuindo à sua ligação com o general Golbery do Couto e Silva e com o major Heitor de Aquino a interpretação que ele faz da história. Contestam também informações sobre as circunstâncias da captura e morte do capitão Carlos Lamarca e sobre versões supostamente falsas que o jornalista teria encampado sem checar. Procurado pelo Estado, Gaspari disse que não falaria sobre o assunto.
O general Negrão Torres rebate também informações de Brasil: Nunca Mais, "o badalado livro em cuja preparação e publicação o cardeal Arns usou milhares de dólares subtraídos à ajuda aos necessitados de sua diocese". Para o general, o dossiê patrocinado pela Arquidiocese de São Paulo é "a bíblia dos revanchistas".
Tratando da Igreja Católica, alguns entrevistados lembram que milhões de católicos saíram às ruas na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em 1964. Mas, ao falar da resistência de padres e bispos ao regime, vários oficiais criticam o comportamento político de d. Paulo Evaristo Arns (São Paulo), d. Hélder Câmara (Olinda e Recife) e d. Pedro Casaldáliga (São Félix do Araguaia).
"O próprio bispo de Belo Horizonte, d. Serafim Fernandes (mais tarde cardeal), adorado por muitos, tinha forte tendência de esquerda", disse o general Octávio Aguiar de Medeiros, que chefiou o Serviço Nacional de Informações (SNI). Na mesma linha são citados o dominicano Frei Betto e o ex-franciscano Leonardo Boff, militantes da Teologia da Libertação.
Em depoimento gravado na Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra, em 29 de março de 1994, o general Antônio Carlos da Silva Muricy dá uma boa contribuição para a história, ao relatar como foi convidado e como assumiu o comando das tropas mineiras do general Mourão Filho, as primeiras a marchar contra Goulart, sob a liderança civil do governador de Minas, Magalhães Pinto. Convocado pelo telefone, Muricy pegou o volante de seu carro às 7 horas da manhã, no Rio, para chegar ao meio-dia a Juiz de Fora.
"Nunca houve quem fizesse mais contravenções de trânsito do que eu nesse dia", contou 30 anos depois. Ele estava sem comando e como "não podia ficar olhando os acontecimentos", aceitou o convite na hora, quando Mourão lhe disse que precisava de um homem e não acreditava no general Carlos Luís Guedes, o chefe militar da insurreição em Belo Horizonte.
Entre os civis entrevistados, o engenheiro Roberto Medici defende o governo e a personalidade do pai, o presidente Emílio Medici. O general, disse seu filho, pretendia entregar o poder a um civil e, se não o fez, foi porque, a seu juízo, o País não estava totalmente pacificado.
Ao analisar o episódio da sucessão do presidente Costa e Silva, o general Danilo Venturini, que foi ministro-chefe do Gabinete Militar no governo João Figueiredo, considera um erro a junta militar não ter deixado o vice-presidente Pedro Aleixo assumir a Presidência.