Título: Ex-subsidiária VarigLog faz oferta de US$ 350 milhões pela Varig
Autor: Nilson Brandão Junior
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/04/2006, Economia & Negócios, p. B15

A Varig apresenta hoje aos credores uma proposta de compra da parte operacional da companhia aérea, por US$ 350 milhões, o equivalente a R$ 770 milhões ao câmbio atual, feita ontem à tarde pela VarigLog. A proposta chega numa semana crucial para a Varig, que vem trabalhando com o caixa apertado, tem encontrado dificuldade para acertar as dívidas correntes e divulgou a necessidade de mais um corte de pessoal e negociações com credores.

A VarigLog é uma empresa de logística que pertencia à Varig e foi vendida em dezembro do ano passado, por US$ 48,2 milhões, o equivalente a R$ 106 milhões, à Volo Brasil, consórcio do qual o fundo americano Matlin Paterson detém participação acionária junto a três empresários brasileiros: Marco Antonio Audi, Marco Hapfel e Luiz Gallo. A assessoria de comunicação da VarigLog não informou ontem o peso do Matlin dentro do capital da Volo.

A informação dada, no início da noite, era que a empresa de logística iria se pronunciar apenas hoje à tarde, depois da análise da proposta por parte da Varig e credores. Na nota divulgada ontem, a VarigLog chega a citar que a "compra visa possibilitar a continuidade das atividades da mais antiga companhia aérea do Brasil", além de garantir o capital de giro, reservas de caixa "necessários à continuidade da Varig" e recuperação de aviões parados.

A assessoria da VarigLog informou que a parte operacional da Varig envolve a área comercial, aviões, linhas aéreas e prédios, e não a companhia aérea como um todo. A explicação é que a empresa inclui direitos e obrigações, que não interessariam à Varig Log, como as ações que a empresa move contra a União para a recomposição de tarifas congeladas entre o fim dos anos de 1980 e o início da década de 1990, além de dívidas da empresa.

A informação é de que a VarigLog não pretende assumir parte pesada do endividamento da empresa, cujos valores giram em torno de US$ 7 bilhões, conforme balanço de 2004. O balanço referente a 2005 vai ser apresentado dentro de 15 dias. Uma fonte que acompanha a recuperação da Varig cogitou sobre o risco de estar em jogo, mais uma vez, a venda da "parte boa" da empresa, deixando de fora uma parte da companhia com as dívidas.

Numa nota divulgada 16 minutos após o comunicado da VarigLog, a Varig informou ter recebido uma "efetiva proposta" de dinheiro novo. Disse ainda que "o investimento possibilita a recuperação da maior companhia aérea brasileira, mantendo milhares de postos de trabalho, e viabiliza a continuidade da operação da Varig". Segundo a empresa aérea, um grupo de credores analisará a proposta hoje.

Mas o Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (Snea) já promete entrar na Justiça contra a proposta da VarigLog, com o argumento de que a venda da própria VarigLog para o Matlin Patterson não foi ainda sequer aprovada pelas autoridades brasileiras. Pela legislação em vigor, empresas aéreas podem ter no máximo 20% de seu controle nas mãos de estrangeiros.

NEGOCIAÇÕES

Numa tentativa de acertar os gastos ao fluxo de caixa nos próximos meses, tradicionalmente de baixo movimento, a empresa iniciou na última sexta-feira entendimentos com grandes credores para renegociar prazos e valores de dívidas. Ao fundo de pensão Aerus, um dos principais credores, foi proposta a suspensão do pagamento por sete meses, a partir de abril, e retomada em novembro.

As dívidas não seriam pagas de abril a outubro e seriam compensadas em 18 parcelas mensais. O presidente do Aerus, Odilon Junqueira, antecipou que o fundo "tem muita dificuldade em aceitar isso". Segundo ele, não há como aceitar a proposta da forma como foi colocada. "Criaria um problema de solução de continuidade no pagamento dos benefícios." O executivo negou o rumor de que o fundo poderia vir a pedir a falência da Varig. "É um boato sem cabimento", comentou.

A empresa pretende fazer demissões para reduzir seus custos mensais. As informações que circularam no final de semana são de que esse corte atingiria 2 mil pessoas. Ontem, porém, a Varig informou que não havia definido nem o tamanho nem a data dos cortes. A presidente do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA), Graziela Baggio, enviou correspondência à Varig pedindo esclarecimentos sobre os cortes e informações sobre o total de pessoas que já aderiram aos programas de desligamento incentivado da empresa. Segundo a Varig, estes números ainda estão sendo levantados pela área de recursos humanos.