Título: PT e oposição tentam acordo para salvar
Autor: Eugênia Lopes e Luciana Nunes Leal
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/04/2006, Nacional, p. A6

Parlamentares governistas e oposicionistas resolveram na última hora buscar um acordo para tentar aprovar hoje um relatório na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios. Enquanto apresentavam na CPI um texto alternativo que contesta quase todas as conclusões do relatório produzido pelo deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), os petistas aceitaram sentar para negociar. Numa reunião comandada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), foi designado um grupo de seis parlamentares para propor alterações no parecer de Serraglio.

"Demos um passo importante para a condução de um relatório único", disse ao fim do encontro o deputado Maurício Rands (PT-PE), principal autor do parecer paralelo apresentado pelos petistas. O grupo escolhido terá até as 16 horas de hoje para entregar à CPI um novo texto. Um dos temas mais polêmicos é o chamado mensalão, cuja existência foi considerada incontestável por Serraglio e é integralmente rejeitada pelo PT. Se não houver consenso em relação ao relatório reformulado, haverá uma disputa voto a voto.

Depois da reunião chefiada por Renan, Serraglio admitiu que seu texto poderá ser mudado em alguns pontos, mas manterá sua "espinha dorsal". "Não vou fechar nenhum entendimento para fazer vergonha", afirmou o relator.

"A pior coisa que pode acontecer é a CPI dos Correios acabar sem a aprovação de um relatório final", disse Renan, momentos antes de se reunir com os integrantes da CPI e o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP). "Não é possível não termos um relatório final. É preciso ter cuidado com o que fizermos porque, infelizmente, nossa imagem hoje está no chão", observou o presidente da CPI, senador Delcídio Amaral (PT-MS).

O deputado petista José Eduardo Martins Cardozo (SP) condenou a possibilidade de não se chegar a um acordo: "Todo mundo quer relatório e ninguém quer relatório-pizza." Além de Cardoso, integram o grupo indicado para retocar o relatório Delcídio, Serraglio, Rands e os deputados Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) e Eduardo Paes (PSDB-RJ). "O relatório do PT é um suicídio. Eles viram que fizeram besteira e agora querem conversar", afirmou ACM Neto.

Uma sessão para discutir as propostas de mudança no relatório de Serraglio foi aberta já no início da noite de ontem. A sessão deveria se estender até meia-noite e recomeçar às 10 horas de hoje. Durante todo o dia de ontem, Serraglio mostrou-se disposto a fazer algumas concessões em seu parecer. Avisou que aceita pedir o indiciamento do banqueiro Daniel Dantas, como defendem os petistas.

Para agradar ao PTB, o relator também aceitou reescrever parte de seu relatório em que trata do pagamento de parlamentares para mudar de partido. O PTB fez essa reivindicação porque, na época do mensalão, os deputados Roberto Magalhães (PE) e Armando Monteiro (PE) saíram, respectivamente, do PFL e do PMDB e ingressaram no PTB. Com essa alteração, o líder do PTB, José Múcio (PE), garantiu ao deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) que não vai substituí-lo na CPI dos Correios. "Vou votar com o relatório de Serraglio", afirmou Faria de Sá.

O relator também concordou em retirar o nome da filha do ex-ministro Jaques Wagner do relatório final. Em seu texto, Serraglio relatou que a filha do ex-ministro era empregada da GDK, empresa que tem contrato com a Petrobrás e presenteou com um jipe Land Rover o ex-secretário-geral do PT Sílvio Pereira.