Título: A canoa virou, deixaram ela virar
Autor: Dora Kramer
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/03/2006, Nacional, p. A6

Duda abusou da proteção do Supremo e CPI não teve firmeza nem agilidade para reagir

Se o Congresso não tomar uma providência, logo terá seu poder usurpado não apenas pelas interferências do Judiciário, mas por orientações de advogados e as conveniências dos respectivos clientes.

O presidente da CPI dos Correios, senador Delcídio Amaral, tocou no problema ontem, ao final da tentativa de tomada de um segundo depoimento do publicitário Duda Mendonça.

Tão grave e inusitada foi a situação criada pela interpretação peculiar do sentido do habeas-corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal que o senador fez uma rara, mas providencial manifestação.

Foi ao ponto quando indicou o risco do precedente da recusa à resposta a toda e qualquer pergunta mediante o pretexto do inquirido de que não saberia distinguir as respostas auto-incriminatórias daquelas fora do alcance da salvaguarda do STF.

Ora, bastaria que consultasse seu advogado para saber. Faltou à CPI expediente e firmeza para cobrar a aplicação do discernimento e, uma vez extrapolados os limites do salvo-conduto para calar, enquadrar o publicitário aos costumes, chamá-lo à responsabilidade por desacato. E depois na pretoria se resolvia a questão.

A presença de Duda Mendonça ontem na CPI dos Correios não foi inútil. Calando, falou mais do que se tivesse respondido às questões dos deputados e senadores a respeito dos meios e modos utilizados pelo publicitário para receber pagamentos e armazenar proventos recebidos pelos serviços que prestou ao longo de sua carreira como marqueteiro político.

Justificou seu silêncio dizendo que pagou alto preço por ter falado - segundo ele, a "verdade" - da primeira vez.

Há um equívoco na avaliação. Duda Mendonça não pagou alto preço por ter falado, mas porque mentiu e foi desmascarado na mentira e na tentativa de, sete meses atrás, envolver a CPI no golpe publicitário do comparecimento espontâneo, supostamente para "abrir o coração".

Na ocasião, diversos parlamentares, durante o depoimento, se deixaram enganar e muitos o cercaram de homenagens junto com as inquirições. Viram, nos dias e meses seguintes, que haviam sido iludidos pelas artes da propaganda. Postas ontem de novo em prática nas insistentes afirmações do publicitário buscando dar a impressão de que gostaria muito de falar, mas não o fazia por ordem de seu advogado.

Perdido o controle e o timing do show, Duda mostrou que já deu por perdida sua imagem como profissional e dedica-se exclusivamente a amenizar as sanções que o aguardam na Justiça.

Da primeira vez, o publicitário tentou iludir a CPI com suas artimanhas emocionalistas. Ontem, zombou da comissão e, na prática, pode ter-lhe cassado as prerrogativas de interrogar para investigar.