Título: Relator surpreende e pede absolvição de Mentor
Autor: João Domingos
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/03/2006, Nacional, p. A10
Edmar Moreira muda atitude e agora diz que não há provas contra petista
O deputado Edmar Moreira (PFL-MG) recomendou ontem ao Conselho de Ética a absolvição de José Mentor (PT-SP). Moreira, que é relator do processo de cassação de Mentor, afirmou que "inexistem provas de que o deputado tenha quebrado o decoro ou auferido vantagens indevidas em razão da atividade parlamentar".
Mentor foi acusado pela CPI dos Correios de receber R$ 120 mil das empresas de Marcos Valério. É o segundo dos acusados de envolvimento com o mensalão a receber parecer favorável do conselho. O primeiro foi o ex-líder do PL Sandro Mabel (GO), que conseguiu a absolvição do plenário. O parecer de Moreira surpreendeu o conselho.
Para evitar que a votação ocorresse e vencesse o voto pela absolvição de Mentor, os deputados Júlio Delgado (PSB-MG) e Moroni Torgan (PFL-MG) pediram vistas do relatório. O presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PTB-SP), marcou a próxima sessão para quinta-feira, quando será votado o relatório de Moreira. A intenção dos parlamentares que pediram vistas é fazer um outro relatório, este recomendando a cassação.
A mudança de atitude de Moreira ao longo de dois meses ficou evidente. Durante o interrogatório de Mentor, nos dias 17 de janeiro e 2 de fevereiro, ele disse que vasculharia os dois recibos que o petista tem e que apresentou como prova de que os R$ 120 mil recebidos de um sócio e de uma empresa de Valério foram em pagamento de consultas jurídicas feitas por seu escritório de advocacia. Mentor sustentou essa versão até o fim. Chegou a apresentar um laudo do perito Ricardo Molina, da Unicamp, segundo o qual as notas fiscais não são frias.
Moreira justificou sua mudança dizendo que não é justiceiro. "O justiceiro faz justiça com as próprias mãos; eu não." Afirmou ainda que para propor a absolvição de alguém é preciso coragem. Depois, enumerou os motivos que o levaram a acreditar na inocência de Mentor.
Para Edmar Moreira, o deputado apresentou provas de que fez o trabalho encomendado pela 2S Participações, empresa de Valério, mostrou que os estudos existiram, pagou os impostos e nunca negou que conheceu o empresário acusado de ser o operador do mensalão. Para Moreira, não há provas de que Mentor tenha recebido, direta ou indiretamente, recursos do valerioduto. Mentor admitiu que encontrou Valério "umas três ou quatro vezes, sempre para tratar da campanha eleitoral de 2004".