Título: Ficção e realidade
Autor: Denis Lerrer Rosenfield
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/04/2006, Espaço Aberto, p. A2

Com os resultados da CPI dos Correios e a denúncia oferecida pelo Ministério Público, fica ainda mais difícil para o PT sustentar o discurso de que nada ocorreu, que toda a corrupção sistêmica por ele introduzida é um caso banal de caixa 2. Os termos do Ministério Público foram contundentes por tratar de "organização criminosa" a "equipe" instalada no governo federal, com suas ramificações partidárias na Câmara dos Deputados. O País teria sido tomado de assalto por uma quadrilha que usou e abusou da corrupção, tentando escudar-se numa pretensa defesa da "mudança social", que seria empreendida por um partido comprometido com a ética na política.

Desde o estouro do escândalo da corrupção, os próceres petistas e governamentais se têm esmerado na utilização de um discurso de tipo ideológico, ancorado na distinção entre esquerda e direita, como se tudo o que estivesse acontecendo fosse mero resultado das "elites", que estariam resistindo às grandes transformações em curso. Deixavam esses líderes partidários de lado que uma ala ética petista já tinha abandonado o partido e fundado outro. Só esse fato já mostraria a inação do argumento, pois "à direita" ou "à esquerda" vozes exigiam a apuração dos fatos e a punição dos culpados, cientes de que para além das divergências partidárias o que contava - e conta - é a moralidade da vida pública. Sem esta as instituições representativas se enfraquecem e a democracia está em perigo.

Não obstante a sucessão de provas, mostrando o enraizamento da corrupção em todo o aparelho do Estado graças ao seu aparelhamento partidário, os líderes partidários optaram pela esquizofrenia. O dito "núcleo duro" do partido foi desaparecendo, entrando em seu lugar outra equipe, que não tem com o presidente a mesma afinidade que tinha a anterior. Na área econômica, entrou um segundo time que provavelmente não terá condições de enfrentar uma forte crise internacional, caso sobrevenha. Na área política, a radicalização em termos de discurso político mostra que o PT e o governo nada aprenderam com sua experiência, pois continuam encobrindo a corrupção, mostrando-se incapazes de fazer a menor revisão doutrinária.

Os novos dirigentes governamentais e partidários vivem nas nuvens das palavras, enredando-se nestas e tropeçando em suas iniciativas. Não há dia que passe sem que os atuais dirigentes falem da ausência de corrupção, do comprometimento do partido com a ética e da pureza de suas intenções contra os que querem impedir a continuação das grandes "mudanças" introduzidas pelo atual governo. É como se o mundo real não os afetasse, pois, no seu mundo, tudo é claro: os agentes da mudança travam uma brava luta contra os "conservadores" que querem impedir que o País siga o seu curso inovador! A realidade, no entanto, é tenaz. O resultado da CPI dos Correios é contundente: o mensalão existiu. A denúncia do Ministério Público é claríssima: o mensalão existiu e foi instituído e estruturado por uma "organização criminosa".

Os dirigentes partidários, quando, nas beiradas de suas falas, ousam reconhecer o que fizeram, falam de "erros" e "desvios" eventualmente cometidos. A CPI e o Ministério Público falam de "crimes" e de "corrupção ativa e passiva", além de "formação de quadrilha". Dois mundos se confrontam: o do partido que se refugia em suas concepções históricas, ao arrepio de qualquer confronto com realidade, situando-se no "caminho do socialismo", com um olho nas palavras de ordem e outro em Chávez e Cuba; e o das instituições que teimam em se consolidar, apesar das tentativas empreendidas de seu enfraquecimento. O estrabismo do primeiro desses mundos faz com que o partido ande batendo a cabeça, enquanto a direção do segundo se encaminha para a consolidação das instituições democráticas.

Está-se criando uma situação em que se afirma uma dissociação entre petismo e moralidade. Se o cidadão tiver convicções morais, não será petista. Se for petista, abandonará essas convicções morais, se as tiver. Não se trata de uma questão política nem ideológica, mas simplesmente de decência. Se uma determinada pessoa quiser guardar a sua opção política, poderá migrar para o PSOL, cujos parlamentares têm sido impecáveis do ponto de vista da moralidade pública. Ou para o PPS, cujos parlamentares e dirigentes têm mostrado uma conduta exemplar. Ou fazer o mesmo movimento rumo ao PDT. O próprio presidente da CPI, do PT, foi tratado com palavras de baixo calão por um companheiro que traduziu, adequadamente, o sentimento partidário.

Enquanto isso, com habilidade, o presidente Lula continua navegando em outro mundo, o de seu carisma e o de seu pretenso afastamento da corrupção do seu governo, que, logo, é sua. Sua alternativa reside no populismo econômico e político. O primeiro se está acentuando com o aumento dos gastos correntes do Estado, os programas assistencialistas, o atendimento a determinados setores e o aumento do salário mínimo para além do proposto pelo Ministério da Fazenda. O segundo se faz presente em sua relação cada vez mais direta com as massas e no uso abusivo de uma linguagem "quase lógica", ilógica para os letrados, porém "lógica" para os iletrados que formam sua maior base de apoio.

Se os eleitores deste país optarem novamente por Lula, estarão dando um salto no escuro. Terão admitido a corrupção como algo normal, não condenável, e erigido uma organização criminosa em representante da moralidade. Terão escolhido o caminho da imoralidade, abrindo, assim, espaço para que esses atos se repitam.

Sempre se poderá dizer que os "culpados" foram de certa maneira punidos, pois foram obrigados a deixar o governo. Ficará, no entanto, o sabor amargo de que, para a "organização", o crime compensa.

Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS. E-mail: denisrosenfield@terra.com.br