Título: Nordeste se torna aposta estratégica
Autor: Vera Dantas
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/03/2006, Economia & Negócios, p. B6,7
Empresas investem na região para reduzir custos, desenvolver produtos e aproveitar potencial de consumo
Um misto de atrativos, como mão-de-obra mais barata, incentivos fiscais, custos de logística reduzidos e um grande potencial de consumo tem sido decisivo para levar um número crescente de empresas para o Nordeste. Depois da chegada da indústria de calçados e têxtil à região, nos últimos anos, fabricantes de alimentos, bebidas e artigos de limpeza começam a ampliar investimentos no mercado nordestino, que detém 13% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, o equivalente a R$ 240 bilhões.
A Elma Chips, marca de salgadinhos de milho do grupo Pepsico, terceiro maior produtor de alimentos e bebidas do mundo, inaugura na terça-feira sua primeira fábrica no Nordeste. A companhia já conta com oito unidades industriais no País, em sete Estados, mas desembarca no Nordeste para desenvolver produtos adaptados ao paladar local. A Elma Chips ainda mantém em sigilo as novidades, mas não esconde o entusiasmo pelo mercado local.
Números da ACNielsen revelam que o Nordeste é a região que mais cresce no País, com base numa pesquisa de 157 categorias de produtos na área de alimentos e bebidas. As vendas em volume desses produtos no País aumentaram 4,8% em 2005 em relação a 2004 , mas no Nordeste elas cresceram 12,2% na mesma comparação.
" Em torno de 28% da população brasileira, cerca de 42 milhões de pessoas, está nessa região. Ela tem importância estratégica para a companhia no desenvolvimento de novos produtos", diz o diretor de Vendas da Elma Chips para a região, Ronaldo Perri. A nova fábrica custou US$ 6 milhões, foi construída no complexo industrial de Suape, em Pernambuco e é o primeiro passo da empresa para expansão nas áreas do Norte e Nordeste do País.
"O maior benefício da nova fábrica será a redução de 15% no custo de logística, que permite uma queda de 20% nos preços dos produtos para o consumidor local", diz Perri. Hoje o abastecimento do mercado é feito pela fábrica de Sete Lagoas, em Minas Gerais, a 2.100 quilômetros de distância da região.
A fábrica também será um centro de distribuição importante da Pepsico para suas outras marcas Toddy, Toddynho, Quaker e Coqueiro.
Já a Bombril escolheu o consumidor nordestino como público alvo para o desenvolvimento de uma linha de limpeza. Os produtos que levam a marca Pronto, voltada para as classes C e D, começaram a ser produzidos há 8 meses, no Recife. Para o diretor-superintendente da companhia, Cláudio del Valle, a idéia de lançar os produtos foi de aproveitar a fábrica da Bombril na região para explorar novos nichos de mercado.
Os números obtidos numa pesquisa da empresa deixam claro o peso da região para a Bombril. No período de 1994 a 2003, enquanto o sabão em barra teve uma perda de vendas de 4,39% no mercado nacional, no Nordeste ele atingiu crescimento de 43%. No mesmo período, mostra a pesquisa, o detergente líquido Limpol, da Bombril, teve crescimento nacional de 69% e apenas no Nordeste, de 101%. O potencial de consumo geral do mercado nordestino, conforme o IBGE, ultrapassa os R$ 150 bilhões.
O universo infantil das regiões Norte e Nordeste também despertou a atenção da Gerber, uma das marcas do grupo suíço Novartis. Há três anos no Brasil, a empresa tem 33% das vendas de farinha láctea e mingau de arroz concentradas nos Estados nordestinos. "De cada 100 toneladas de cereais infantis, 33 toneladas são vendidas nesta região", diz o gerente de Marketing da Gerber, Cesar Boulos. "A maior população de bebês do Brasil está no Norte e Nordeste." São cerca de 4 milhões de crianças de até 4 anos de idade, que respondem por 41% do público infantil brasileiro nesta faixa etária.
Há cinco meses, a empresa fechou uma parceria exclusiva com o Bompreço, bandeira da rede Wal-Mart, para relançar seus produtos em novos tipos de embalagens, menores e mais baratas. Os cereais da Gerber saíram da lata de 400 gramas para sacos de 300 gramas, tiveram queda de preço de 30% a 40% para o consumidor final e ganharam destaque especial nas prateleiras do Bompreço.
"As vendas triplicaram e a participação de mercado da empresa, que era de quase zero, foi para 5% ", diz Boulos. O resultado superou expectativas e a Gerber decidiu estender o relançamento do produto para todo o País, em substituição às latas.
"Se a indústria e o varejo estão investindo mais é porque estão visualizando o aumento do poder de consumo", diz o economista Dênis Ribeiro, da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia). Ele calcula que a região, com cerca de 4,8 mil empresas, recebeu no ano passado investimentos em torno de R$ 8,3 bilhões, que correspondem a 4,5% da venda anual do setor, de R$ 184,2 bilhões em 2005.
O consultor Marcos Gouvêa, um dos sócios da Gouvêa de Souza GS&MD, tem a mesma avaliação de aumento da demanda da região. "É o chamariz para as empresas", diz. A maior presença da indústria e do varejo incentiva o consumo, observa, mas o fluxo de turismo crescente nas praias nordestinas também tem dado fôlego para o avanço da economia local. Números da Embratur mostram que somente os passageiros estrangeiros que desembarcam no Nordeste, em vôos fretados, saltaram de 61 mil em 2002 para quase 213 mil em 2005.
A Kibon, marca da Unilever, está investindo R$ 50 milhões no projeto de transferência de sua produção de São Paulo para duas fábricas diferentes. Uma delas é em Jaboatão dos Guararapes, município vizinho do Recife, e a outra, em Valinhos, no Estado de São Paulo. O processo de transferência que começou no fim do ano passado termina em agosto. Com a mudança, a Kibon quer buscar maior competitividade. A fábrica de São Paulo, no bairro do Brooklin foi inaugurada em 1958 e produz 70% do volume de sorvetes da Unilever no Brasil, mas está localizada numa área sem condições de expansão. A Unilever já está no Nordeste há seis anos, com fábricas em Jaboatão, Igaraçu , Ipojuca e Garanhuns, todas em PE.
A Diageo apostou no gosto do consumidor nordestino pelo rum para entrar na região com uma nova marca da bebida e uma versão em lata da velha cuba libre, uma mistura de rum com refrigerante do tipo cola . Em seis meses conseguiu 5% de participação de mercado.
Para a gigante Nestlé, o Nordeste é estratégico. No início do ano, o presidente da companhia, Peter Brabeck, anunciou em Davos, na Suíça, a abertura futura de fábricas na região que representa 20% dos negócios no País. As unidades devem ser instaladas em Pernambuco, Bahia e Ceará para atender à população local. A empresa, por enquanto, não fornece detalhes do investimento.