Título: MST promove saques, invasões e fecha estradas em nove Estados
Autor: Roldão Arruda
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/04/2006, Nacional, p. A4
Cerca de 2 mil pessoas participaram no final da tarde de ontem de um ato político na Rodovia PA-150, em Eldorado dos Carajás, durante o qual homenagearam os 19 trabalhadores rurais mortos pela Polícia Militar no dia 17 de abril de 1996, e protestaram contra a falta de punição dos responsáveis pelo crime. Às 17h15, como vinham fazendo desde o dia 1.º, os sem-terra interromperam o trânsito na rodovia, na altura da Curva do S, onde há dez anos ocorreram as mortes, e só voltaram a liberá-lo meia hora depois.
Presente ao ato, um dos mais ativos líderes do MST, João Pedro Stédile, avisou que as ações devem continuar até julho e disse que há uma nítida disposição, entre os acampados, de manter a pressão sobre o governo - que chamou de "inoperante" na reforma agrária. "Somando os acampamentos do MST e de outros movimentos, já existem 150 mil famílias acampadas, sem perspectivas de serem assentadas", destacou.
Por todo o País o episódio foi lembrado por movimentos de sem-terra. Foram dez fazendas invadidas no Pontal do Paranapanema, em São Paulo, outras duas em Minas, sete saques de alimentos em Pernambuco, outro em Mato Grosso do Sul e uma invasão com destruição de eucaliptos em uma fazenda na Bahia, além de marchas, protestos e discursos em Alagoas, no Rio Grande do Sul e Paraná. Houve protesto até em Washington, nos Estados Unidos.
Na solenidade de Carajás, o representante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro Paulo Vanucchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, discursou de um palanque montado ao lado da rodovia. Disse que a cerimônia era uma forma de se chamar a atenção para as questões da reforma agrária e das violências cometidas no Estado contra os sem-terra.
Estavam também presentes o presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Rolf Hackbart, e o chefe da Ouvidoria Agrária Nacional, Gercino Silva.
Em entrevista coletiva dada no acampamento montado à beira da estrada, o representante do presidente Lula apoiou a reivindicação dos sem-terra por uma revisão das investigações e dos julgamentos realizados até agora em torno do assassinato dos 19 trabalhadores.
"Discordamos de muitas ações do MST. Mas sabemos que a consciência jurídica do País, neste caso, está com o movimento", afirmou Vanucchi. "O Brasil não pode se satisfazer com a idéia de que só dois oficiais sejam condenados."
O ministro de Direitos Humanos destacou que o governo não pretende se imiscuir em assuntos que, segundo as leis, são da competência do Estado do Pará. Mas também enfatizou que pretende conversar e até "pressionar" o governo e o Tribunal de Justiça paraenses para uma revisão dos julgamentos: "Queremos dividir responsabilidades. Uma chacina como essa não pode ter o resultado jurídico que teve."
Nos demais discursos, os oradores criticaram repetidas vezes o ex-governador Almir Gabriel, do PSDB, que governava o Estado na época do massacre. A movimentação na Curva do S - que fica entre Eldorado e Marabá, na PA-150 - começou logo pela manhã e durante todo o dia milhares de pessoas circularam pelo local, inclusive estudantes trazidos de regiões próximas. Muitos desses visitantes rezaram e acenderam velas ao redor da placa de bronze com os nomes dos mortos.
Antes do culto ecumênico houve uma encenação teatral que misturou cenas da paixão de Cristo com o massacre dos sem-terra. O ator que representava o Cristo apareceu envolto numa bandeira vermelha do MST, os milicianos romanos faziam gestos como se levassem metralhadoras nas mãos e o principal acusado de Cristo era um latifundiário.
Ao discursar durante o culto,o presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), d. Tomás Balduíno, elogiou a encenação e disse que "Eldorado dos Carajás é um grito contra a violência estabelecida em nosso País" e contém "o sangue de 19 irmãos caídos que clama pela paz no campo".