Título: Juro sobe para empresas e cai para o consumidor
Autor: Gustavo Freire
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/03/2006, Economia & Negócios, p. B6
Para BC, redução de 0,5 ponto nas taxas para pessoas físicas é 'claro repasse' da Selic. Para as pessoas jurídicas, demanda determinou a alta
O sistema financeiro começou a repassar para o consumidor, de forma tímida, a redução da taxa básica de juros, a Selic. Segundo o Banco Central (BC), a taxa média nos empréstimos para pessoas físicas caiu de 59,7%, em janeiro, para 59,2% em fevereiro. O movimento foi o inverso ao de janeiro, quando a taxa subiu, apesar da queda da Selic.
De acordo com o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, a taxa cobrada em fevereiro foi a menor da série histórica iniciada em 1995. "É um claro repasse da queda da taxa básica para o custo dessas operações."
Mas os bancos não repassaram toda a redução para os clientes. Entre setembro de 2005 e fevereiro deste ano, a taxa média recuou 2,9 pontos porcentuais; os juros básicos, 3,25 pontos.
No caso dos empréstimos para empresas, a taxa média de juros de 31,3% de janeiro subiu 0,3 ponto porcentual em fevereiro. "O aumento é reflexo do crescimento da demanda por crédito pelas empresas de pequeno porte", explicou Lopes.
Os pequenos empresários arcaram com taxas mais salgadas. "Os juros mais altos são a proteção dos bancos contra o risco de inadimplência nas operações com clientes ainda pouco conhecidos", observou o chefe do Depec.
O aumento dos juros para as empresas foi encarado pelo economista Guilherme Maia, da consultoria Tendências, como pontual. "Não acreditamos que esse aumento seja algo duradouro", disse. O chefe do Depec espera que o custo dessas operações caia em em março. "Nos primeiros 13 dias deste mês, já registramos uma pequena queda dos juros nessas operações com empresas."
A expectativa de queda, de acordo com Lopes, tem base no fato de o custo dos bancos na captação de recursos apresentar queda expressiva nos últimos meses. "Essa queda terá de ser repassada ao tomador de crédito em algum momento."
Mesmo tendo atingido o piso em fevereiro, os juros do crédito ao consumidor também tem espaço para mais reduções. "Entre setembro e fevereiro, o spread (diferença entre o que os bancos pagam e cobram pelo dinheiro) teve redução de apenas 0,4 ponto porcentual, enquanto a queda da Selic foi de 3,25 pontos", comentou Lopes. Em fevereiro, o spread ficou estável em 43,7 pontos porcentuais. Esse valor é 0,9 ponto porcentual acima dos 42,8 pontos do fim do ano passado.
Os dados divulgados ontem pelo BC mostram ainda que os juros ainda altos não foram suficientes para interromper o processo de elevação da oferta de crédito. No mês passado, o volume dos empréstimos bancários sem direcionamento obrigatório aumentou 1,8%, chegando a R$ 349,9bilhões. "Ainda há espaço para o crescimento", disse o chefe do Depec.
Para o economista da Tendências, os empréstimos bancários deverão apresentar neste ano um aumento real (descontada a inflação) de 18,5%. "O aumento será menor do que os 29,6% de 2005 mas, ainda assim, um patamar forte", disse Maia. Na opinião do chefe do Depec, o aumento do volume de crédito também ajudará a elevar a eficácia das decisões sobre juros tomadas pelo Comitê de Política Monetária (Copom).