Título: Nas ruas, pela fantasia econômica
Autor: Reali Júnior
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/03/2006, Internacional, p. A12
Ah, a primavera em Paris. A vista da polícia antichoque diante da Sorbonne. O cheiro do gás lacrimogêneo pairando no Sena. Os doces sons da hipocrisia emanando da Assembléia Nacional e do Palácio do Eliseu!
O que inspira as festividades revolucionárias desta estação é uma lei radical que daria aos empregadores até dois anos para decidir se concedem ou não aos novos empregados jovens o tipo de segurança trabalhista vitalícia garantida pela lei francesa.
Para os que sofreram a lavagem cerebral do capitalismo de mercado anglo-americano, isto poderia parecer o tipo de flexibilidade trabalhista de que se fala em reuniões como a cúpula européia desta semana - o tipo de flexibilidade que poderia realmente incentivar uma companhia francesa a criar empregos.
No entanto, vistos pelo prisma obscuro da imaginação francesa, estes não são empregos de verdade - são "sobras de emprego" e "contratos de escravos" destinados a minar o direito de todos os cidadãos de serem resguardados de qualquer risco econômico.
Abrindo-se mão disso, quem sabe o que cairá depois? A semana de 35 horas? As seis semanas de férias pagas? A participação nos lucros imposta pelo Estado? A aposentadoria aos 60? O que revolta nos franceses é que, em nome da igualdade e da solidariedade, eles estão a caminho de criar não só uma das economias menos vibrantes do mundo industrializado, mas também uma das menos igualitárias.
Os membros plenos dessa economia, os "de dentro", são um grupo cada vez menor de trabalhadores mais velhos, de classe média, que contam com o arsenal completo de proteções trabalhistas. A maioria está no setor público ou em setores privados pesadamente regulamentados. Os restantes trabalham em empresas privadas competitivas cujo número também diminui.
E então há os "de fora". Este grupo crescente inclui os jovens desempregados dos subúrbios de maioria imigrante que saíram às ruas no ano passado, atirando pedras e queimando carros.
Mas inclui também os filhos dos "de dentro", que tendem a gastar o tempo na universidade até os 24 ou 25 anos, flutuar entre estágios não remunerados, trabalhos temporários e a assistência social por mais cinco anos e só então ingressar lá "dentro".
Seria de se pensar que, depois de todo esse tempo gasto proseando nos cafés, esses jovens "de fora" já tivessem percebido que esse sistema, que protege e mima os "de dentro" a todo custo está sugando a inovação e a vitalidade da economia.
Contudo, em vez de apoiar as reformas que poderiam gerar mais empregos e renda, os "de fora" compram a fantasia nostálgica de uma França que outrora tomava partido - mas nunca mais tomará - desses mesmos cidadãos "de dentro", cujo egoísmo e cujo socialismo teimoso deixaram os "de fora" à margem.
Dito isso, é difícil culpar os garotos por estarem confusos sobre seu apuro econômico.
Afinal, o governo supostamente centro-direitista que promoveu o novo Contrato Primeiro Emprego (CPE) é o mesmo governo que se recusou categoricamente a acabar com os subsídios aos agricultores, interveio para impedir aquisições de companhias francesas por estrangeiros e, ainda na semana passada, exigiu que os iPods da Apple aceitassem baixar música de concorrentes do iTunes (leia-se: concorrentes franceses). Mas tendo declarado, em essência, que não se pode confiar nos mercados para que criem resultados social e politicamente aceitáveis, o mesmo governo agora fica chocado porque não tem muita credibilidade quando pede aos trabalhadores que confiem nos mercados quando o assunto são os termos de seu emprego.
Esse tipo de hipocrisia calculada da elite política francesa, que gosta de "falar à esquerda e agir à direita", agora já minou completamente o apoio ao capitalismo de mercado.
Numa reveladora pesquisa divulgada em janeiro pelo programa da Universidade de Maryland, que estuda as atitudes do público diante das questões internacionais, apenas 36% dos entrevistados franceses disseram achar que "o sistema de livre empresa e economia de livre mercado" é o melhor sistema.
É o menor índice entre os 22 países pesquisados, abaixo dos 59% na Itália, 65% na Alemanha, 66% na Grã-Bretanha e 71% nos Estados Unidos.
Por isso, talvez não surpreenda que a última lista de bilionários globais da revista Forbes tenha incluído apenas 14 da França, sem nenhuma nova entrada este ano. A Alemanha, que não tem o dobro do tamanho da França, tem o quádruplo de bilionários, enquanto a Grã-Bretanha, que é mais ou menos do mesmo tamanho, tem 24.
Quando você pergunta aos universitários franceses quem é o Bill Gates da França, a resposta é um olhar vazio. Não é só o fato de eles não conseguirem citar alguém. O maior problema é que eles não conseguem imaginar por que isso importaria, ou por que isso teria algo a ver com o motivo de eles não conseguirem um bom emprego.