Título: Equipe será anunciada de uma vez
Autor: Adriana Fernandes, Renata Veríssimo
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/03/2006, Economia & Negócios, p. B8

Mantega reafirma que não tem pressa de anunciar equipe e definição ainda depende da saída de Paulo Bernardo

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, passou ontem a maior parte do dia na sede do BNDES no Rio. Foi pegar seus pertences, fez uma reunião com todos os diretores do banco e outra, em separado, com o diretor financeiro, Carlos Kawall, ex-economista-chefe do Citibank no Brasil. O nome de Kawall é cogitado para a secretaria do Tesouro Nacional, no lugar de Joaquim Levy. Mantega deixou o Rio às 16 horas, em direção a Brasília, num vôo de carreira. Ele não confirmou nomes da sua equipe no ministério. Afirmou que ainda não havia escolhido ninguém e chegou a perguntar, demonstrando bom humor: "Por que a pressa?".

Mantega viajou a Brasília acompanhado do diplomata do Itamaraty Álvaro Vereda de Oliveira, seu assessor para Assuntos Internacionais no banco, também cotado para participar da sua equipe. Durante o dia, Mantega não fez declarações à imprensa. O novo presidente do BNDES, Demian Fiocca, dará sua primeira entrevista à imprensa hoje.

No segundo dia no novo cargo, Mantega decidiu dispensar os seguranças que normalmente acompanhavam o ex-ministro Antonio Palocci. Ele chegou ao banco no carro, apenas com o motorista. Outros dois seguranças do ministério foram ao BNDES, para acompanhá-lo.

Quando soube da presença dos seguranças da Fazenda, solicitou que fossem dispensados. NILSON BRANDÃO JUNIORO ministro da Fazenda, Guido Mantega, reiterou ontem que não tem pressa de escolher os nomes que integrarão a sua equipe e prometeu anunciar os novos auxiliares todos de uma vez. "Vou apresentar todos os nomes juntos. Não tenho nenhuma pressa", disse, ao chegar ao ministério para uma reunião com os secretários da pasta e tomar pé da situação. "Vou conversar com os técnicos da Fazenda. Tem muita gente boa. Não tenho essa pressa que vocês têm."

Ontem, dois nomes eram tidos como fortes para ocupar a secretaria-executiva, no lugar de Murilo Portugal, que pediu demissão do cargo: o atual secretário-executivo do Ministério do Planejamento, João Bernardo Bringel, e Bernard Appy, atual secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. O que tem atrasado a escolha é a indefinição sobre a saída ou não do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, para disputar as próximas eleições.

Para o substituto de Joaquim Levy, no Tesouro Nacional, o nome mais certo é mesmo o do diretor do BNDES, Carlos Kawall. Ele é considerado um profissional com perfil para o cargo.

O ministro já descartou ontem o nome do economista da Unicamp Luciano Coutinho, mas desconversou sobre a possibilidade de ter Kawall na sua equipe.

"Olha, não vou dar detalhes", esquivou-se depois de ter deixado claro que Coutinho não seria a sua escolha: "Não o convidei, embora seja um excelente economista e meu amigo, mas não converso com ele há muito tempo."

INTERVENÇÃO

O processo de transição da equipe do Ministério da Fazenda já motiva manifestações de descontentamento com a forma pela qual o novo ministro vem conduzindo a composição de sua futura assessoria. Segundo fontes do governo, Mantega tem demonstrado pouca habilidade na condução do processo de transição da equipe econômica.

A maior queixa de alguns secretários do Ministério foi com o descaso de Mantega em falar com a equipe em seguida à confirmação pelo Palácio do Planalto do seu nome para o lugar de Palocci. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve de intervir para diminuir os atritos.

Lula telefonou para o secretário-executivo, Murilo Portugal, e pediu que ele ficasse mais um tempo. Portugal, que no dia da demissão do ex-ministro Antonio Palocci mandou divulgar uma nota comunicando a sua decisão "irrevogável" de deixar o cargo, aceitou permanecer no Ministério até o final desta semana.

Ontem, antes da reunião com a equipe de secretários, Mantega preocupou-se em elogiar a equipe remanescente do ex-ministro Antônio Palocci. "O ministério é profissional. Está trabalhando. Não tem nada parado. Tem muita gente boa."

CURINGA

Apesar de ter confirmado que vai permanecer na equipe de Mantega, o secretário Bernard Appy faz parte também do grupo dos descontentes com a transição. Integrante do PT, ele é considerado um "curinga" na equipe e aceitou ficar. No início da era Palocci, já ocupou a vaga de secretário-executivo.

Além do descontentamento do presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, que exigiu uma operação "bombeiro" nos bastidores do Palácio do Planalto, o estresse também foi grande no Tesouro Nacional.

O ex-secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy, não quis nem esperar Mantega assumir o cargo e acertou diretamente com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a sua exoneração. Foi Dilma quem assinou a portaria com o pedido de exoneração, publicada ontem no Diário Oficial da União.

Com a ida já acertada para uma vice-presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o ex-secretário estava disposto a ficar nesse período, mas se irritou com as declarações de Mantega dadas na terça-feira, entre elas a de que um "secretário interino" ficaria no seu lugar.

Foi a gota d'água para Levy, que já há algum tempo vinha manifestando descontentamento com a deterioração do quadro fiscal e o aumento das pressões por maiores gastos. No dia da posse, Levy já não estava mais assinando atos administrativos e recolheu a maioria dos seus pertences no gabinete do Tesouro.