Título: Vida na ISS é aventura incômoda
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Fonte: O Estado de São Paulo, 02/04/2006, Vida&, p. A30
Na ausência de gravidade, dia-a-dia na Estação Espacial não inclui chuveirada e a comida precisa de reidratação
A nave russa Soyuz TMA-8 foi acoplada com sucesso à Estação Espacial Internacional (ISS) a 1h19 de ontem, informou o Centro de Controle de Vôos Espaciais da Rússia. Na 13.ª missão à ISS, iniciada quinta-feira, viajavam o brasileiro Marcos Pontes, o russo Pavel Vinogradov e o americano Jeffrey Williams. Ontem mesmo Pontes começaria alguns dos oito experimentos que fará em seus oito dias no espaço.
Um deles foi realizado ontem por estudantes de quatro escolas de São José dos Campos (SP). Dois mil alunos participaram da germinação de sementes de feijão. "É um projeto que me toma o pensamento o dia todo", disse a estudante Ana Elisa Barcelos, de 13 anos. SIMONE MENOCHI COM EFE
Imagine passar seis meses no espaço. Uma aventura e tanto? Agora pense em ficar seis meses sem tomar uma chuveirada, comer a cada oito dias o mesmo prato reidratado, usar um cano de sucção para coletar urina e se amarrar para dormir. Esse é o dia-a-dia na Estação Espacial Internacional (ISS), base permanente na órbita terrestre, aonde chegou ontem o astronauta Marcos Pontes.
Para ele, que ficará oito dias na estação, a estada não será uma provação. É o tempo que costumam ficar os turistas espaciais enviados na mesma nave Soyuz. Pontes terá um cronograma específico para cumprir os experimentos brasileiros selecionados e outro conjunto com as tripulações nova e antiga da ISS.
Alguns rituais, no entanto, são os mesmos. Um dos primeiros começa na ida: acostumar o corpo à ausência de gravidade, que provoca um mal-estar parecido com o marear no carro. Os sintomas geralmente somem em três dias, quando o labirinto se adapta. No espaço, não existe "chão" e "teto". As referências são dadas pela distribuição dos equipamentos e pelas instruções nas paredes, escritas apenas em uma direção.
Passado o enjôo, é hora de aproveitar o cardápio. Cientistas americanos e europeus gastam neurônios e dinheiro para reproduzir versões fáceis de consumir no local, mas com o sabor do que é feito em casa. Só que os pratos se repetem a cada oito dias. Metade do menu é preparada pelos Estados Unidos e outra, pela Rússia. Porém, ele pode incluir pratos japoneses e canadenses. Não há forno, mas um sistema de aquecimento e reidratação - uma bênção para Pontes e seus colegas de ida, que ficaram dois dias na Soyuz à base de comida fria.
Para comer, os utensílios ficam presos ou saem voando. Os astronautas têm predileção por tortilhas, um tipo de pão mexicano feito de milho. Elas espalham menos migalhas - que podem estragar os sistemas ou entrar no olho dos tripulantes.
As necessidades calóricas e nutricionais variam. De forma geral, eles consomem menos ferro, já que não o utilizam para fabricar muitas células vermelhas no sangue, reduzidas no espaço; menos sódio, para evitar ainda mais perda óssea; e mais vitamina D, para compensar a falta de exposição direta ao sol.
Ir ao banheiro não é uma das tarefas mais tranqüilas na ISS. Uma cabine guarda um vaso parecido com o da Terra, onde o astronauta se senta. Mas as semelhanças param por aí. Primeiro, ele tem de se amarrar pelos pés e pernas para não flutuar. A coleta ocorre por sistemas de ar. A urina é feita num tubo com adaptador pessoal na ponta, parecido com um funil e diferente para homens e mulheres. Um sistema de ventilação leva o líquido para reciclagem: toda a água usada na estação - inclusive a urina - é limpa para ser reaproveitada, uma vez que esse não é um recurso abundante por lá.
As fezes também são feitas na mesma cabine, por um buraco de 10 centímetros de diâmetro. Um sistema de ar leva os resíduos para outro compartimento, onde são expostos ao vácuo do espaço, que imediatamente os congela e desodoriza. Eles são coletados e trazidos de volta à Terra.
O banho é tomado em um compartimento parecido com um box. A água não escorre pelo corpo. As gotas se grudam na pele, como uma capa. O astronauta usa um sabonete especial e passa um tipo de aspirador para retirar tudo. Toalhas umedecidas especiais também podem ser usadas na higiene. Para dormir, entram em sacos presos nas paredes, se amarram e usam máscaras, já que o Sol nasce a cada 90 minutos, seguindo a órbita da ISS.
Pontes não terá tempo para se cansar desses procedimentos. Por sorte ou azar, ele retorna no dia 8, com dois tripulantes que passaram seis meses nessa situação.