Título: A fantasia diplomática de Lula
Autor: Rolf Kuntz
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/04/2006, Economia & Negócios, p. B2

O ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, chamou de "universalista" a política externa do atual governo. Ele fez a declaração ao receber homenagem na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Ele pode usar as palavras como quiser e sabe fazê-lo muito bem. Mas isso não muda os fatos, nem torna menos terceiro-mundista a diplomacia praticada nos últimos três anos. Segundo o ministro, o Brasil não se distanciou dos mercados tradicionais e os números provam essa afirmação. As vendas para o mundo em desenvolvimento passaram de 43% do total exportado em 2002 para 52% em 2005, mas "isso não ocorreu em detrimento das relações com o mundo desenvolvido".

De fato, as exportações para os Estados Unidos e para a União Européia continuaram em crescimento nos últimos anos. Mas esse dado não sustenta a opinião do ministro. Os números mostram apenas que os exportadores brasileiros continuaram, contra todas as dificuldades, a trabalhar duramente para ocupar espaço nos mercados mais desenvolvidos. Tampouco o aumento das vendas para novos mercados prova a eficiência comercial da diplomacia petista. Quem examinar as séries com alguma atenção verá que as vendas para a China, a Rússia e outros mercados considerados novos começaram a crescer acentuadamente nos anos 90. O presidente Lula não descobriu a China. Houve missões importantes a vários países da Ásia e do antigo mundo comunista bem antes de o Brasil ser descoberto pelo veterano líder sindical.

Dificilmente se poderá atribuir qualquer aumento das vendas a novos mercados à atual diplomacia brasileira e às viagens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nenhum acordo relevante contribuiu para isso. Nenhum ato político pesou mais que as ações de empresários empenhados em buscar mercados novos.

Esse empenho tem resultado não só do dinamismo próprio da atividade comercial, mas também das dificuldades de acesso aos mercados da Europa e dos Estados Unidos. Há dificuldades, sim, e acordos comerciais poderiam tê-las diminuído ou removido. As tarifas industriais americanas e européias podem ser pequenas na média, mas dificultam as exportações brasileiras em muitos casos. As dificuldades são ampliadas pelas preferências comerciais concedidas a países concorrentes do Brasil. Alguns desses países são latino-americanos.

As preferências não são concedidas apenas a produtores agrícolas, como os exportadores de açúcar do grupo ACP. Valem também para produtos industriais e deslocam exportações originárias do Brasil.

A diplomacia brasileira criou, no atual governo, enormes obstáculos à negociação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Na prática, as discussões foram enterradas em 2003, apesar das encenações posteriores. O presidente Lula, num de seus muitos atos falhos, declarou num discurso que o projeto da Alca havia sido abandonado no primeiro ano de seu mandato. Disse a verdade, ao afirmar que o assunto havia saído da pauta. Auxiliares do presidente ainda tentaram consertar o escorregão, dizendo que ele se havia referido às pautas jornalísticas. Foi patético.

Enquanto isso, a China continuou a ocupar mercados em todo o mundo, com suas condições peculiares de competição. Tomou espaço do Brasil em vários países. Poderia ter tomado menos, talvez, se os exportadores brasileiros dispusessem de acesso preferencial a esses mercados.

Seria uma das boas conseqüências de acordos com as grandes economias. As vendas para esses mercados cresceram, como disse o ministro, mas provavelmente poderiam ter crescido muito mais, se o governo estivesse mais atento à realidade do comércio e menos preso às suas fantasias. O presidente Lula, compreensivelmente, deixa-se levar pela conversa terceiro-mundista e pela patacoada sobre o "nunca antes na história deste país".

Em artigo publicado na segunda-feira pelo Estado, ele menciona seu trabalho pela integração latino-americana e refere-se a um "esforço inédito de criação de uma infra-estrutura integrada". Não lhe contaram, certamente, que a integração energética Brasil-Bolívia começou a ser discutida no início dos 90 e que os contratos para construção do gasoduto de 3.150 quilômetros foram assinados em 1997. Também não lhe disseram que a primeira reunião de presidentes da América do Sul foi realizada em Brasília em 31 de agosto e 1º de setembro de 2000. Esconderam-lhe que um dos principais resultados do encontro foi a Iniciativa para Integração da Infra-Estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), que em pouco tempo gerou vários projetos. O presidente Lula mencionou a IIRSA em seu artigo, mas certamente não conhece a sua história. Para que conhecê-la, se a história relevante do Brasil, segundo seus discursos, começou com ele?