Título: Saddam admite: mandou matar xiitas
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Fonte: O Estado de São Paulo, 06/04/2006, Internacional, p. A17

Na primeira vez em que foi interrogado pela corte, ex-ditador disse ter assinado ordens de execução de xiitas

O ex-presidente iraquiano Saddam Hussein reconheceu ter aprovado a sentença de execução de um grupo de xiitas em 1982, mas justificou a ordem dizendo que eles estavam envolvidos na tentativa de assassiná-lo. Saddam foi interrogado ontem pela primeira vez pela promotoria no Tribunal Especial Iraquiano que o está julgando pelo massacre de 148 homens e meninos xiitas da aldeia de Dujail, em 1982 - no primeiro processo aberto contra ele.

Ele admitiu ter escrito "sim" à margem de um documento que recomendava a execução de dez jovens. Numa sessão anterior, Saddam reconheceu ter ordenado o julgamento que resultou na morte dos 148 xiitas. Esta é a primeira vez, no entanto, que ele admite, em resposta a uma pergunta da promotoria, ter ordenado as execuções.

Centenas de pessoas denunciaram torturas e expropriação de terras em conseqüência da repressão que se seguiu ao atentado contra o comboio de veículos de Saddam em Dujail. Quando o promotor-chefe Jaafar al-Mousawi lhe perguntou como pôde ter levado apenas dois dias para examinar as provas, antes de assinar a ordem de execução, Saddam respondeu: "Esse é o direito do chefe de Estado. Fui convencido de que as evidências eram suficientes." Saddam acrescentou que seguiu as normas constitucionais.

Desde o começo do julgamento, Saddam já apareceu várias vezes no tribunal, mas em nenhuma dessas oportunidades tinha sido interrogado. Apesar de esse processo incluir sete assessores do ex-ditador, ontem apenas ele compareceu à sessão, justamente para responder a perguntas da promotoria.

Saddam aproveitou para endossar as denúncias de líderes da comunidade sunita (privilegiada durante o seu governo) de que o Ministério do Interior é conivente com esquadrões da morte e milícias formados por xiitas. O julgamento prossegue hoje, provavelmente com a apresentação dos argumentos da defesa. Na terça-feira, o tribunal, abriu um segundo processo contra Sa ddam, pela morte de quase 100 mil iraquianos de etnia curda, na chamada Operação Anfal, em 1988. Saddam foi acusado formalmente pela primeira vez de genocídio e limpeza étnica (a tentativa de exterminar toda a população curda).