Título: Previsões em clima de Copa do Mundo
Autor: Marcelo Rehder
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/04/2006, Economia & Negócios, p. B1,3

Empresas apostam nos efeitos do aumento de empregos e de salários

Por trás do otimismo apontado pela pesquisa da Serasa está a aposta das empresas de que a massa salarial continuará crescendo, estimulada pela recuperação do emprego, pelo aumento da oferta de crédito e pela redução dos juros. Além disso, o consumo também será favorecido pelos efeitos da Copa do Mundo e das eleições.

Os fabricantes de televisores, por exemplo, entraram em campo para bater todos os recordes de vendas neste ano de Copa. A expectativa da Eletros, entidade que reúne as empresas do setor, é de que os brasileiros comprem 10,9 milhões de TVs, o equivalente a 1,1 milhão de aparelhos a mais que o recorde anterior, registrado em 2005 (9,8 milhões de unidades). Se a previsão se confirmar, representará aumento de 12%.

A Semp Toshiba, que disputa a liderança de vendas de TVs com a Philips, espera vender este ano de 20% a 25% mais do que em 2005, quando faturou quase R$ 1,9 bilhão. "Estamos otimistas porque as nossas vendas de televisores cresceram 30% no primeiro trimestre, em relação a igual período do ano passado", afirma Luís Freitas, diretor de Vendas da empresa.

No início do ano, a Semp Toshiba admitiu os 600 trabalhadores temporários chamados para reforçar a produção de fim de ano. Além disso, vai investir mais R$ 10 milhões este ano. Com isso, a empresa vai concluir um projeto iniciado em 2004, que totaliza investimentos de 40 milhões destinado à ampliação da capacidade de produção da linha de aparelhos de imagem e som em 25% e de informática, em 20%.

Na Philips, o clima não é diferente. "Vamos ter um ano muito bom, por causa da Copa e das eleições. Esperamos faturar mais de 20% em relação a 2005", afirma José Fuentes, vice-presidente da Divisão de Produtos de Consumo Eletrônicos da Philips. Na virada do ano, a empresa investiu US$ 10 milhões para aumentar em 30% a sua capacidade de produção. "Estamos avaliando se isso é suficiente ou se há necessidade de novos investimentos".

O otimismo da indústria é confirmado pelo varejo. As Casas Bahia, maior rede de eletroeletrônicos e móveis do País, esperam faturar R$ 13,5 bilhões este ano, R$ 2 bilhões a mais do que em 2005. Michael Klein, diretor-executivo, diz que a rede pretende investir este R$ 200 milhões este ano. Metade dos recursos deverá ser aplicada em 100 novas lojas . A Bahia espera chegar ao fim de dezembro com 600 pontos de venda. Os outros R$ 100 milhões deverão ser usados na construção de três novos centros de distribuição. Com esses investimentos, a rede deverá abrir 10 mil postos de trabalho com carteira assinada este ano. Hoje, emprega 56 mil pessoas.

Dentre os 960 empresários ouvidas na pesquisa da Serasa, 38% estão convencidos de que a taxa de desemprego cairá este ano no País. Outros 31% acham que ficará estável em relação a 2005. Para 30% dos entrevistados, a renda média dos trabalhadores deverá crescer acima da inflação, enquanto outros 45% acreditam que ela ficará igual.

De acordo com as instituições financeiras que participaram da pesquisa, a oferta de crédito deverá crescer tanto para os consumidores quanto para as empresas. Já entre as empresas em geral, 50% apostam na queda da taxa básica de juros (Selic).

Não foi por obra do acaso que a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) já reviu sua estimativa de crescimento para o PIB deste ano, de 3% para 4%. A entidade detectou que o nível de atividade industrial no Estado vem crescendo desde novembro de 2005.

"Achamos que essa tendência se aprofundou em março", diz Paulo Francini, diretor do Departamento de Estatística e Estudos Econômicos da Fiesp.

Um dos primeiros sinais disso foi dado pelo setor automobilístico. No mês passado, as montadoras bateram recorde com a produção de 230,8 mil veículos, o que representou aumento de 12,3% em relação a fevereiro. O recorde anterior havia sido registrado em agosto de 2005, com 230,6 mil unidades produzidas.

"Este é um ano em que o Brasil tem condições para crescer 5%", afirma Roberto Nicolau Jeha, presidente da Indústria de Papel e Papelão São Roberto. Segundo ele, o setor de embalagens de papelão ondulado, considerado um termômetro da demanda doméstica, deverá crescer 6% sobre uma base considerada "medíocre". No ano passado, a expansão do setor foi de apenas 2,1%.