Título: Partido Republicano. De Deus.
Autor: Kevin Phillips
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/04/2006, Internacional, p. A24
Agora que o Partido Republicano foi transformado pela ascensão do Sul, pelo trauma do terrorismo e pela convicção de George W. Bush de que Deus o escolheu para presidente, podemos tirar uma conclusão mais profunda - o Partido Republicano se converteu no primeiro partido religioso da história dos Estados Unidos.
Já tivemos teocracias em escala menor na América do Norte - na Nova Inglaterra puritana e, mais tarde, no Estado mórmon de Utah. Hoje em dia, uma potência líder como os Estados Unidos se aproxima da teocracia quando preenche as condições atualmente constatáveis: um líder eleito que acredita falar em nome do Todo-Poderoso, um partido político no poder que representa genuínos fiéis religiosos, a certeza de muitos eleitores republicanos de que o governo deve ser orientado pela religião e, acima de tudo, uma Casa Branca que adota pautas que parecem motivadas por visões bíblicas do mundo.
Realmente, está ocorrendo uma forte mudança nas políticas doméstica e externa do país - movida pela nova força política da religião e seu papel em projetar poderio militar no Oriente Médio.
Os EUA organizaram grande parte de seu posicionamento militar desde os ataques de 11 de setembro de 2001 em torno da proteção aos campos petrolíferos, oleodutos e rotas marítimas. Mas a preocupação dos EUA com o Oriente Médio tem uma outra dimensão. Além de suas apreensões relativas ao petróleo e o terrorismo, a Casa Branca está cortejando teólogos do fim do mundo e eleitorados para os quais as Terras Santas são um campo de batalha do destino cristão. Ambas as expectativas - de petróleo e bíblicas - requerem uma dissimulação em Washington que enfraquece a tradição dos EUA de compromisso com o papel de um eleitorado informado.
O corolário político - fascinante, mas estarrecedor - é a recente transformação da coalizão presidencial republicana. Desde a eleição de 2000 e principalmente da de 2004, três pilares tornaram-se fundamentais - o complexo petrolífero e de segurança nacional, com seus interesses comuns; a direita religiosa, com seus imperativos doutrinários e eleitorado maciço; e o setor financeiro movido pela dívida, que se estende muito além do velho simbolismo de Wall Street.
O presidente Bush tem promovido esses alinhamentos, grupos de interesse e os valores que os alicerçam. Sua família, no decorrer de várias gerações, tem estado ligada a uma política que alia finanças, segurança nacional e petróleo. Nas últimas décadas, os Bushes adicionaram laços íntimos com evangélicos e fundamentalistas influentes de muitas denominações.
Durante os 25 anos das presidências e vice-presidências dos Bushes, o Partido Republicano gradualmente se transformou no veículo de todos esses três interesses - uma fusão de segurança nacional determinada pelo petróleo; um cristianismo simplista, de cruzada; e um complexo financeiro imprudente alimentado pelo crédito. Os três estão cada vez mais aliados num compromisso com a política republicana.
Na frente mais importante, estou começando a achar que o Partido Republicano de Washington, orientado biblicamente e dominado pelo Sul, representa uma coalizão renegada, como os políticos sulistas pró-escravidão que controlavam Washington até a eleição de Abraham Lincoln em 1860.
Tenho uma preocupação pessoal sobre o que se tornou a coalizão republicana. Há 40 anos, comecei a escrever um livro, The Emerging Republican Majority (A Emergente Maioria Republicana), que terminei em 1967 e levei para a campanha republicana à presidência em 1968, da qual me tornei o principal analista político e de padrões de votação. Publicado em 1969, enquanto eu ainda estava no recém-empossado governo Nixon, o livro foi identificado pela Newsweek como "a bíblia política da Era Nixon".
Nesse livro, cunhei a expressão "Cinturão do Sol" para designar a região de militares, petróleo, tecnologia aeroespacial e aposentados que se estende da Flórida à Califórnia, mas o debate se concentrou sobre o argumento - depois confirmado - de que o Sul estava a caminho de entrar no Partido Republicano nacional. Quarenta anos depois, este cenário produziu a aliança entre petróleo, fundamentalismo e dívida.
Parte dessa evolução foi sempre implícita. Se alguma região dos Estados Unidos tinha o potencial para produzir um fundamentalismo de alta potência, de cruzada, era Dixie. Se algum novo alinhamento tinha o potencial para promover a fusão entre interesses do petróleo e o complexo militar-industrial, esse era o Cinturão do Sol, que ajudou a atraí-los para uma colaboração comercial e política. Wall Street, é claro, há muito tempo faz parte da coalizão do Partido Republicano. Mas membros da entidade comercial Downtown Association e do exclusivo clube de golfe Links nunca tiveram muito entusiasmo pelo cidadão comum e pela América média, muito menos por pregadores como Oral Roberts ou pelas Assembléias de Deus de Tupelo, Mississippi. A nova coabitação não é natural.
REGIÃO CENTRAL
Enquanto estudava geografia econômica na Grã-Bretanha, fiquei intrigado com a teoria da heartland (a região central) eurasiana de sir Halford Mackinder, um ilustre geógrafo do início do século 20. O controle dessa região central, afirmou Mackinder, determinará o controle do mundo. Na América do Norte, pensava eu, o controle de uma região central - através das antigas linhas da Guerra Civil - determinaria o controle de Washington.
Este foi o prelúdio dos "Estados vermelhos" (de eleitorado majoritariamente republicano) de hoje. A região central dos EUA, de Wyoming, Colorado e Novo México a Ohio e aos Estados apalachianos produtores de carvão, tornou-se (juntamente com a Confederação de outrora) um coalizão de hidrocarboneto eleitoral. Ela desfruta de veículos utilitários esportivos e de uma política branda de emissões de dióxido de carbono e aplaude os ataques preventivos americanos a países do Golfo Pérsico que não cooperam com os EUA e abrigam terroristas fortuitamente abençoados com enormes reservas de petróleo.
Como os Estados Unidos estão começando a sofrer de escassez de suas próprias fontes de petróleo, uma solução militar para uma crise de energia dificilmente é considerada uma insanidade. Nem César nem Napoleão teriam vacilado. O que César e Napoleão não enfrentaram, mas presidentes americanos menos capazes sim, é o "efeito bumerangue" econômico que podem ter essas embrulhadas militares no exterior.
Os Estados Unidos, com cerca de US$ 4 trilhões "no prego" internacionalmente, tornaram-se o maior devedor do mundo, cada vez mais atormentado pela preocupação de que alguns países vendam dólares de suas reservas e comprem moedas rivais. Washington emite títulos e promessas de pagamento em dólares que banqueiros europeus e asiáticos acumulam até que, por algum motivo, perdem a paciência. Este é o calcanhar-de-aquiles da dívida, ao lado do calcanhar-de-aquiles do petróleo.
PERIGOS
Infelizmente, mais perigos espreitam na receptividade da nova coalizão do Partido Republicano aos cristãos fundamentalistas, evangélicos e pentecostais, que constituem cerca de 40% do eleitorado republicano. Muitos milhões acreditam que o Armagedon descrito na Bíblia logo virá. O caos no explosivo Oriente Médio, longe de ser uma ameaça, na realidade anuncia a segunda vinda de Jesus Cristo. As altas no preço do petróleo, furacões mortíferos, tsunamis implacáveis e o derretimento das calotas polares dão mais credibilidade a isso.
A possível interação entre o eleitorado do fim dos tempos, a busca inepta por petróleo no Golfo Pérsico, os múltiplos enganos de Washington e a crise financeira que poderá seguir-se a uma liquidação substancial de títulos americanos por seus portadores estrangeiros é a matéria da qual são feitos os pesadelos. Observar os eleitores americanos permitirem tais políticas - é improvável que a coalizão do Partido Republicano recue - é deprimente para alguém que passou muitos anos pesquisando, observando e encorajando essas bases populares.
Há 40 anos, parecia que a nova coalizão do Partido Republicano desfrutaria de uma grande infusão de conservadores católicos (do norte) e protestantes (do sul). Isso não me preocupava. Eu concordava com o argumento republicano que predominava na época de que liberais "seculares", por julgarem mal a profundidade e a importância da religião nos EUA, tinham dado aos conservadores uma oportunidade eleitoral poderosa e legítima.
Desde então, minha percepção da intensidade da religião nos Estados Unidos se aprofundou. Quando a religião foi pisoteada na década de 1960 e daí em diante por defensores do secularismo determinados a empurrar o cristianismo para fora da praça pública, o movimento desencadeou um contra-reforma evangélica, fundamentalista e pentecostal, com fortes pressões teocráticas se tornando visíveis na coalizão nacional republicana e em sua liderança.
Além de proporcionar um apoio crucial à invasão do Iraque - amplamente execrado por pregadores como uma segunda Babilônia -, a coalizão republicana também semeou meia dúzia de controvérsias no domínio da ciência. Entre elas a descrença na teoria de Darwin sobre a evolução das espécies, a recusa em levar em conta o aquecimento global, a discordância em relação às explicações geológicas sobre a exaustão do combustível fóssil, a rejeição religiosa do planejamento populacional global, o cerceamento dos direitos femininos e a oposição à pesquisa com células-tronco. Isso indica que a sociedade americana e sua política podem, mais uma vez, estar rumando para uma polêmica determinante como o julgamento de Scopes em 1925 (julgamento contra o professor John T. Scopes, de Tennessee, que transgrediu uma lei estadual que proibia o ensino, nas escolas que recebessem quaisquer recursos do Estado, da teoria da evolução de Darwin). Aquele embaraço puniu o fundamentalismo por uma geração, mas o desfecho deste possível teste do século 21 é difícil assegurar.
Estes acontecimentos desvirtuaram o Partido Republicano e sua coalizão eleitoral, emudeceram as vozes democráticas e se tornaram uma ameaça crescente para o futuro dos EUA. Nenhuma grande potência mundial da memória moderna se tornou prisioneira de uma espécie de crença na infalibilidade da Bíblia que descarta o conhecimento e a ciência modernos. O último paralelo ocorreu no início do século 17, quando o papado, com a anuência da Espanha inquisitorial, puniu o astrônomo Galileu Galilei por ele ter dito que o Sol, não a Terra, era o centro de nosso sistema solar.
Os fiéis conservadores vão ridicularizar tais preocupações. Os Estados Unidos são uma nação ímpar e escolhida, dizem eles, e o que aconteceu ou deixou de acontecer a Roma, à Espanha imperial, à república holandesa e à Grã-Bretanha é irrelevante. O problema aqui, infelizmente, é que esses países também pensaram que eram ímpares e que Deus estava do lado deles.
No decorrer dos últimos 25 anos, adverti várias vezes sobres esses precedentes políticos, econômicos e históricos (mas não religiosos). A concentração de riqueza que ocorreu nos EUA na alta do mercado de ações de 1982 a 2000 foi também típica dos auges das potências econômicas mundiais anteriores enquanto suas elites se banqueteavam em vilas do Mediterrâneo ou no esplendor das casas de campo da Inglaterra eduardiana.
Nos primeiros anos de um país, a dívida é vital e uma colaboradora criativa na expansão da economia; nos seus últimos estágios, torna-se o que Mr. Hyde foi para o Dr. Jekyll - uma distorção, cada vez mais dominante, de rosto e comportamento. Os EUA do início do século 21 estão bem entranhados neste apogeu conduzido pela dívida. E alguns analistas afirmam - muito plausivelmente - que uma insustentável bolha de crédito substituiu a bolha acionária que estourou em 2000.
Infelizmente, três das fraquezas exibidas nesses declínios anteriores foram o excesso religioso, uma base industrial e energética em declínio e uma dívida freqüentemente relacionada com exigências excessivas sobre as Forças Armadas e a política externa. A política nos Estados Unidos - e principalmente a evolução da coalizão republicana governante - merece muito da culpa pela convergência fatal dessas forças hoje no país.