Título: Papa, comunismo, fascismo,vinho, pães e as eleições
Autor: Reali Júnior
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/04/2006, Internacional, p. A20,21

Elementos da cultura italiana estão reunidos em duas pequenas cidades

Quem não conhece o vinho branco de Frascati? Mesmo o papa, cuja residência de verão se encontra em Castelgandolfo, há seis quilômetros de distância, conhece. Essas duas cidades estão na divisa de Roma, na região de Castelli Romani. Os dois municípios têm sido administrados tradicionalmente pela esquerda italiana, coabitando com esse pedaço do Vaticano nas alturas da capital. Em Frascati, o prefeito, Francesco Paulo Bosa, é comunista, mas isso não o impede de ser amigo íntimo da padeira, Rosana Cerelo, uma senhora de quase 80 anos, mas que mantém a tradição familiar de preparar o melhor pão da cidade. Eu sou de "destra" (direita) , mas adoro Francesco que conheço desde que nasceu e é de "sinistra" (esquerda).

Rosana recebe encomendas do "pão de páscoa" e biscoitos de gente de esquerda e direita, preparado no seu forno à lenha, mas não esconde sua preferência política de ninguém. "Berlusconi começou do nada e hoje possui uma fortuna. Não pode ser tão burro assim como afirma a esquerda", repete a padeira de Frascati reconhecendo que seus argumentos podem não ser sofisticados, mas são lógicos.

Quando o papa João Paulo II encontrava-se em Castelgandolfo, encomendava o "pão de páscoa" de Rosana, cujo segredo é uma lenha muito fina que se acumula diante de seu estabelecimento. Seu filho, aí por volta dos 50 anos, vendo a mãe dando entrevista, todo vestido de negro estacionou sua moto e se apressou para exibir o seu celular com a foto de Mussolini, o Duce , punho fechado no ar com o fundo musical de Fascetta Nera, canção que exalta o neofascismo italiano.

Não é só em Frascati que a esquerda tem vencido, mas também em Castelgandolfo, onde se encontra o Palácio Pontificial. Seus 6.500 eleitores também se preparam para votar em Prodi contra Berlusconi. Lá a convivência é total, pois comerciantes e funcionários municipais têm seu emprego garantido pela presença constante de turistas que visitam a cidade. "A coabitação entre a administração e o Vaticano é completa e não lembro de nenhum problema", afirma a responsável cultural pela prefeitura , doutora Stefanis Zamagni.

Quanto ao papa, apesar de sempre presente durante o verão , raramente é visto, pois chega de helicóptero. João Paulo II, às vezes, saía do Palácio por alguns minutos para abraçar as crianças, mas voltava rapidamente para o interior de sua residência. Uma vez por ano, no último domingo de julho, o papa aparece para saudar a população e as crianças da cidade lhe oferecem uma cesta de pêssegos. No bar da praça, um líder sindical aposentado, quando indagado sobre como vê essa coabitação entre o papa e os comunistas, não hesita em responder: "O papa é o papa e os comunistas são os comunistas. Eles não se amam, mas se respeitam. Domingo de eleição, o papa e os católicos vão à missa e os comunistas vão votar."