Título: Cheia deixa crianças sem aula no Amazonas
Autor: Liège Albuquerque
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/04/2006, Vida&, p. A24

Seis meses após a seca, Rio Madeira está acima da média de emergência

Pelo menos até junho, Eraldson de Souza Menezes, de 9 anos, vai ter de adiar seu sonho de "aprender a ler letrinhas". Eraldson é uma das 5.491 crianças fora das salas de aula da área rural de Manicoré, município a 333 quilômetros de Manaus, onde desde o dia 20 foi decretado estado de calamidade pública por causa da cheia do Rio Madeira. A mesma região enfrentou, entre setembro e outubro do ano passado, a pior seca desde os anos 40 no Estado.

As 68 escolas da área rural foram fechadas pela prefeitura para garantir a segurança das crianças, ameaçadas por picadas de cobras e ataques de jacarés, com a água beirando as escadas e quase chegando ao piso. Os prédios vazios, até que o rio comece a descer, em junho, também poderão servir de abrigo para quem já teve sua casa alagada pelas águas barrentas do Madeira.

"Minha mãe já tinha começado a me mostrar as letrinhas, que eu desenhava no chão do quintal agora alagado. Mas eu queria mesmo escrever num caderno", lamenta o garoto, que mora em uma palafita perto da escola, com a mãe e quatro irmãos mais novos. A varanda da casa de Eraldson está a poucos centímetros da água do rio.

Manicoré é apontado pela Defesa Civil do Estado como o município em situação mais crítica dos cinco do Amazonas em estado de calamidade pública e emergência por causa da cheia dos rios. Das 70 comunidades da cidade, 59 foram atingidas pela enchente, o que está afetando a vida de cerca de 8 mil pessoas. Metade delas está desabrigada e alojada em casa de parentes ou num centro de convenções na cidade.

PAIS REVOLTADOS

De acordo com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Manicoré (Sintem), José Antonio Pinto Gomes, das 78 escolas fechadas apenas 7 estão alagadas e impossibilitadas de abrir. Em uma viagem de cinco horas ao longo do Rio Madeira, a reportagem do Estado passou de barco por 14 escolas que estavam a no mínimo 5 metros da água.

O presidente da comunidade Verdum, Aldenor Leal da Silva, afirmou que pais das 200 crianças fora da sala de aula, na comunidade, estão revoltados com o fechamento das salas. "Eu mesmo tenho cinco filhos que, em vez de estarem estudando agora, passam o dia jogando bola em frente da escola".

O Rio Madeira vem subindo até 2 centímetros por dia. Ontem, segundo dados do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), a marca chegou a 25,64 metros registrados por uma régua no porto de Manicoré. A cota já está 5 centímetros acima da medida considerada de emergência (média máxima do rio), de 25,59 metros, alcançados em 1997.

DIARRÉIAS E MICOSES

De acordo com o fiscal da Defesa Civil Estadual Matheus Evangelista, que está há 15 dias trabalhando no socorro à população de Manicoré, a maioria das crianças das casas atingidas pela enchente sofre com diarréia.

"O levantamento feito pelo hospital da cidade mostrou que, além de diarréia, as principais doenças que atingem os ribeirinhos adultos e crianças em pouco mais de 15 dias da enchente são micoses, infecções respiratórias e hepatite", afirma o fiscal Evangelista.

Humaitá, a 600 quilômetros de Manaus, é o segundo município mais afetado, com 6 mil pessoas de quatro bairros e 30 comunidades rurais atingidas. Das 107 escolas rurais, 40 foram fechadas.

CALAMIDADE

Desde o dia 20, Lábrea e Pauini, banhados pelo Rio Purus, e Humaitá e Manicoré, banhados pelo Madeira, decretaram estado de calamidade pública. Segundo a assessoria do governo estadual, há 30 membros da Defesa Civil trabalhando nesses municípios, fazendo o levantamento de desabrigados e de doenças e retirando famílias.

Foram enviadas cestas básicas a pelo menos 15 mil famílias nos quatro municípios. Borba, banhado também pelo Madeira, já decretou estado de emergência, com cerca de 3 mil flagelados.