Título: Há 30 anos, favela do Rio convive com UFRJ
Autor: Renata Cafardo e Roberta Pennafort
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/05/2006, Vida&, p. A23
Tão perto, tão longe. A frase descreve a sensação dos jovens do complexo da Maré ao se deparar com o enorme campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Ilha do Fundão, que fica ao lado do conjunto de favelas. Maior instituição federal de ensino do País, com 35 mil alunos só na graduação, a UFRJ não é suficientemente grande para absorver nem a quadragésima parte dos 4.620 moradores do complexo que concluíram o ensino médio.
A Cidade Universitária é separada das favelas por uma pequena distância: num trecho, pelo canal do Cunha; noutro, pela Linha Vermelha. As dificuldades para se passar pela porta da frente, no entanto, são muitas: falta de um bom ensino médio, descontinuidade nos estudos, ausência de estímulo em casa, necessidade de trabalhar e a alta competitividade do vestibular.
No fim do ano, Maria Elisângela Cruz,de 32 anos, da Nova Holanda, uma das 16 favelas da Maré, tentará entrar na UFRJ pela quarta vez. Ela só pisou no campus para fazer as provas dos vestibulares anteriores. Ficou admirada com a grandiosidade. "Ter uma universidade dessas tão perto de casa é estimulante, mesmo sendo tão difícil", diz a paraibana que veio para o Rio aos 14 anos e sonha em ser psicóloga ou pedagoga.
Ingrid Pereira, de 22 anos, tentará o curso de Nutrição pela terceira vez. "É o sonho de todos. É aqui em frente e é uma instituição de excelência", diz. Na Maré, só 0,5% dos 132 mil habitantes, ou seja, 660 pessoas, têm ensino superior.
"Sei que vou ter mais chances com um diploma", acredita Elisângela. Ela segue o exemplo do marido, Adriano Ferreira Rodrigues, de 28 anos, nascido na Maré. O rapaz não entrou na UFRJ, mas conseguiu se formar em Ciências Agrícolas pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e já pensa no mestrado. Quer virar professor.
Rodrigues cursou e Ingrid e Elisângela estão cursando o pré-vestibular comunitário da Maré (CPV). Dois mil alunos passaram pelo projeto, que completa uma década em 2007. A média de aprovação é de 16,7%.
A Universidade Estadual do Rio (Uerj), onde há sistema de cotas, foi a que mais aprovou: 153 pessoas, de 1998 ou 2004 (32% dos candidatos). A UFRJ vem em segundo: os 92 aprovados correspondem a 19% do total de candidatos. Os dados foram levantados pela ex-aluna do CPV Elionalva Sousa Silva, e constam de sua tese de mestrado na Fundação Getulio Vargas (FGV).
Três dos já graduados chegaram à pós-graduação. Entre elas, Elionalva, que foi da primeira turma do CPV. A pedagoga, que é pesquisadora do Observatório de Favelas, entidade instalada na Maré, acredita que a passagem por uma faculdade é fundamental para que se amplie o campo de possibilidades do jovem que nasce e cresce numa favela e, a longo prazo, transformar a imagem que a sociedade tem dela. "Tem de existir pessoas em volta mostrando que isso é possível. É importante sair do mundo só da favela e conhecer um mundo maior."
Os moradores da favela da Maré começaram se instalar por ali na década de 40. A UFRJ foi aberta nos anos 70, mas as obras foram iniciadas 20 anos antes. Muitos dos que vivem hoje na Maré trabalharam em sua construção .