Título: Europa sofre com governos fracos
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Fonte: O Estado de São Paulo, 12/04/2006, Internacional, p. A20

Há quase dois anos, o diretor-presidente de uma das maiores empresas internacionais com sede na França traçou as linhas gerais do que encarava como a melhor probabilidade para a necessária reforma econômica que abriria as economias da Europa e facilitaria em muito a contratação e demissão de trabalhadores.

Isso, segundo ele, era algo que políticos de todos os partidos sabiam ser necessário, mas que provavelmente seria impopular entre os eleitores. A solução, disse ele, era os partidos das maiores economias da Europa aceitarem a impopularidade que viria em decorrência da mudança na economia de modo que todos os governos esperassem serem substituídos na eleição seguinte por um governo que então desagradaria os eleitores adotando muito mais leis e que, por sua vez, também seria substituído.

A maior chance de isso ocorrer, acrescentou ele, estava na Alemanha. Ele via a França com muito menos probabilidade de pôr isso em prática, parcialmente porque mesmo os partidos supostamente conservadores estavam cada vez mais contra a mudança.

Ele acertou a parte da impopularidade, um fato evidente tanto na incapacidade do chanceler Gerhard Schroeder ser reeleito na Alemanha no ano passado como na capitulação, na segunda-feira, do presidente da França, Jacques Chirac, quando revogou uma lei que seu governo tinha posto em vigor para facilitar a contratação e demissão de trabalhadores com menos de 26 anos.

Porém há poucos indícios, fora da Alemanha, onde uma coalizão do governo talvez tente aprovar algumas mudanças econômicas limitadas, que os políticos venham a se empenhar para promover a mudança. Na França, o Partido Socialista, de oposição, expressou críticas ferozes à lei que o primeiro-ministro, Dominique de Villepin, pressionou para que fosse aprovada no Parlamento. Até mesmo o ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, um possível candidato à presidência na eleição do próximo ano, deixou de oferecer um apoio pleno.

Na Itália, onde os eleitores foram às urnas no domingo e na segunda-feira, a coalizão de oposição comandada por Romano Prodi falou em mudar uma das poucas medidas tomadas pelo primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, para elevar a idade da aposentadoria gradualmente e assim diminuir o ônus sobre o sistema previdenciário.

Em todos esses países, uma categoria acostumada com a segurança, aqueles com empregos tradicionais que acabam em generosos planos de aposentadoria, se opõe a qualquer tentativa de alterar o sistema. Os economistas podem advertir que é o próprio sistema a maior razão do desemprego, particularmente entre jovens, estar altíssimo e que as pressões da globalização sinalizam que a Europa precisará acabar mudando para impedir seu crescimento de cambalear ainda mais.

Mas muitos eleitores parecem preferir retardar isso o maior tempo possível.

A lei adotada e depois abandonada pelo governo francês teria permitido que as empresas oferecessem contratos de dois anos a trabalhadores com menos de 26 anos mas estabelecia que esses contratos poderiam ser rompidos sem motivo.

A intenção, em parte, era apresentar uma solução aos tumultos do ano passado nos subúrbios pobres de Paris, freqüentemente habitados por árabes e seus descendentes, onde a falta de emprego é grande e a esperança pouca. A idéia era que os empregadores, sem a necessidade de manter más contratações, se dispusessem a contratar jovens árabes.

Porém, universitários e sindicatos trabalhistas reagiram com fúria e, no final, o governo francês recuou, como já fizera.

Um dos motivos para a relutância de franceses e italianos em aderir ao que os políticos encaram como mudanças necessárias é a insegurança de longa data dos governos, em contraposição com as situações relativamente estáveis em países como Estados Unidos e Grã-Bretanha.

Na Itália, houve um histórico de governos de curta duração na maior parte do tempo desde o fim da 2ª Guerra Mundial, se bem que muitos deles fossem ocupados pelos mesmos políticos. Berlusconi tem sido uma exceção, conseguindo durar um mandato parlamentar inteiro.

Na França, a mudança tem sido bem mais lenta. Chirac está no poder há mais de uma década, porém os governos franceses parecem menos confiantes no seu mandato. A história da França está repleta de mudanças violentas no governo, a maior de todas a Revolução Francesa, e os políticos atuais lembram-se de 1968, quando alguns acharam que os protestos estudantis foram para obrigar o presidente Charles de Gaulle a renunciar.

Trinta anos depois, alguns previram que a adoção do euro como moeda comum de 12 nações européias, entre elas França e Itália, tornaria a mudança inevitável, uma vez que a desvalorização da moeda deixaria de ser uma ferramenta econômica para manter a competitividade. Mas isso não aconteceu na amplitude prevista, e alguns políticos, incluindo dois ministros do gabinete da Itália, culparam o euro pelos atuais problemas.

Em vez disso, as expectativas generalizadas de que mudanças impopulares provavelmente serão obrigatórias tornaram os governos com menos probabilidade de continuarem populares e podem ter feito com que os consumidores se preocupassem se as pensões prometidas estarão lá quando se aposentarem. Essa apreensão, por sua vez, pode ser a responsável pelos altos índices de poupança - e o baixo gasto em consumo, ao menos para os padrões americanos ou britânicos, que tem caracterizado as economias continentais.