Título: Para Kawall, upgrade pode vir já em 2007
Autor: Ribamar Oliveira
Fonte: O Estado de São Paulo, 14/04/2006, Economia & Negócios, p. B5
'Melhora do perfil da dívida interna é passo decisivo'
O secretário do Tesouro Nacional, Carlos Kawall, afirmou ontem, em entrevista ao Estado, que é "bastante alta" a probabilidade de o Brasil alcançar, em 2008, o chamado grau de investimento, concedido pelas agências internacionais de classificação de risco (rating). Otimista, Kawall cogitou até a possibilidade de isso ocorrer ainda em 2007, no primeiro ano do novo governo.
O grau de investimento é a nota atribuída pelas agências de rating aos países que elas consideram ter baixo risco de dar calote na sua dívida pública. Essa nota abre ao País a possibilidade de receber grandes investimentos dos ricos fundos de pensão americanos, o que possibilita redução nos custos de financiamento externo.
Para Kawall, o passo mais importante que o Brasil precisa dar para atingir essa classificação é melhorar o perfil da dívida interna, fazendo com que tenha prazos mais longos e maior participação de títulos prefixados, cuja taxa de juros é definida no momento da venda do papel. Atualmente, a dívida brasileira tem maior participação de títulos pós-fixados, cujos juros variam de acordo com as decisões do Banco Central.
"O grande desafio é este. Ainda bem que neste ano já começamos bem", afirmou, referindo-se ao aumento nas vendas de títulos prefixados e de papéis atrelados à inflação com prazos longos (até 2045).
Na avaliação de Kawall, o grau de investimento já em 2007 pode ocorrer se o Brasil for "bem sucedido" na continuidade desse processo de melhora no perfil da dívida interna. Segundo ele, com a baixa vulnerabilidade externa que o Brasil alcançou, a probabilidade de se dar prosseguimento a essa trajetória sem maiores solavancos é considerável.
Apesar de otimista com a trajetória da dívida interna, Kawall admitiu que nas últimas semanas tem havido uma redução no apetite dos investidores para os papéis de prazo mais longo, sobretudo os títulos atrelados ao IPCA (as NTN-B). Ele atribuiu essa postura mais cautelosa dos investidores ao processo de alta no juro do título de 10 anos dos Estados Unidos - que ontem atingiu 5% ao ano - e também por conta das mudanças realizadas no ministério da Fazenda.
O secretário esclareceu que, por conta disso, o Tesouro reduziu o volume de títulos vendidos nos leilões semanais, para evitar oscilações grandes no preço. No entender de Kawall, essa desaceleração na venda dos papéis é natural não só pelo contexto de curto prazo, mas também pelo fato de que no início do ano houve "emissão robusta" desses títulos.
Ele avaliou que o juro maior nos EUA não parece sinalizar uma mudança significativa no cenário internacional.