Título: Tensão marca cúpula em Puerto Iguazú
Autor: Tânia Monteiro e Mariana Barbosa
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/05/2006, Economia & Negócios, p. B1
O encontro entre os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, da Bolívia, Evo Morales, da Venezuela, Hugo Chávez, e da Argentina, Néstor Kirchner, ontem, em Puerto Iguazú, Argentina, foi marcado pela tensão.
Apesar de os presidentes Chávez e Kirchner terem mencionado que a reunião foi das melhores de que já participaram - para Chávez foi uma das melhores dos últimos sete anos -, o que se observava nos salões do Iguazú Grand Hotel era um clima tenso entre os corpos diplomáticos dos países envolvidos na negociação, ainda contaminados pela forma beligerante com que Morales anunciou a nacionalização das reservas de gás e petróleo da Bolívia, na última segunda-feira, com a invasão militar da refinaria da Petrobrás naquela país.
Nas mesas em que os integrantes do Itamaraty conversavam com representantes dos Ministérios de Relações Exteriores dos outros países, foram deixados de lado os sorrisos e muitas vezes as brincadeiras amistosas foram substituídas por faces carrancudas e com fisionomia de preocupação.
Assessores dos diversos governos também mostravam apreensão com mais de três horas e meia de reunião dos presidentes, sem a presença de nenhuma outra testemunha, o que deixava as equipes totalmente sem detalhes das negociações.
Até mesmo colaboradores muito próximos do presidente Lula, caso do assessor presidencial Marco Aurélio Garcia, e do ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, que atualmente atendem à imprensa, evitaram comentar a reunião. O vice-presidente da República, José Alencar, chegou ao ponto de afirmar que, por ser vice, não participava das negociações e tampouco conhecia detalhes dos acertos.
No encerramento do encontro, os presidentes mostravam-se sorridentes e até mesmo chegaram fazer algumas brincadeiras. Ao ser indagado na conferência internacional de imprensa, Hugo Chávez recebeu um "ultimato" de Kirchner para que só falasse por cinco minutos, provocando risos na platéia e entre os presidentes.
Apenas como referência, Chávez concedeu uma entrevista coletiva em São Paulo, na semana passada, que teve duração de mais de duas horas. Hoje, falou por menos de dez minutos, sem respeitar totalmente o limite imposto pelo anfitrião argentino.
Ainda nesse clima de preocupação, os presidentes procuraram esvaziar o debate em torno do preço do gás natural boliviano, deixando a decisão para negociações bilaterais futuras, e centraram foco em temas como a necessidade de se investir na Bolívia, o país mais pobre da América do Sul, e garantir a regularidade no abastecimento do gás natural, sem prejuízos maiores no curto prazo para os consumidores.
Enfatizaram também a construção do megaprojeto do gasoduto interligando Venezuela e o Cone Sul, com mais de 9 mil quilômetros de extensão, podendo custar US$ 25 bilhões e demandando mais de seis anos de obras.
O ingresso da Bolívia no empreendimento, tratado até a semana passada pelo governo Evo Morales como "loucura" e "megalomania" foi considerado uma das vitórias da reunião de Puerto Iguazú.