Título: 'Lula está sendo dócil demais com a Bolívia'
Autor: Irany Tereza
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/05/2006, Economia & Negócios, p. B3
Sebastião do Rego Barros Neto, embaixadorEntrevistaEmbaixador há mais de 40 anos, tendo atuado recentemente como representante brasileiro na Argentina, Sebastião do Rego Barros Netto, também ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), se diz perplexo com a passividade com a qual o governo está tratando a questão boliviana. Ele classifica de "timorata" (medrosa, covarde) a reação brasileira e diz que o presidente Lula está sendo "dócil" demais. No Itamaraty, conta, em confronto com países mais poderosos, o Brasil soube defender melhor suas posições.
Como o sr. classifica a declaração de Evo Morales de que a suspensão de investimentos da Petrobrás é chantagem? Declarações do Evo Morales e do Hugo Chávez são tão desastradas, tão radicais que só posso dizer que, como diplomata, fico horrorizado. Mas fico mais triste de ver essa falta de reação (do governo brasileiro).
Não estou defendendo uma guerra verbal com a Bolívia, mas mostrar que não gostou é o mínimo que poderia ter sido feito.
O sr. acredita, então, que o presidente Lula está sendo passivo? Até agora eu não tinha essa impressão, mas agora fica essa impressão no ar. Espero que não seja verdadeira, mas que fica, fica.
De passividade ou de apoio? No caso da Bolívia, li as declarações atribuídas ao presidente, não ouvi da boca dele. Me pareceu que ele apoiava a Bolívia ter controle de seus recursos naturais porque é um povo pobre, que precisa. Como se não tivesse (benefícios) através da Petrobrás. A empresa está lá legalmente, usando seu capital, sua competência, fruto de negociações de Estado com Estado, que levaram o Brasil a fazer investimento pesadíssimo no gasoduto e dando à Bolívia um retorno muito alto, em termos de impostos, etc. Se há uma diferença entre Brasil e Bolívia em torno de preço (do gás), isso pode ser resolvido de outras maneiras e não dessa, de fazer uma nacionalização que, por mais que não se queira dizer, me parece uma expropriação.
Houve erro diplomático na questão da Bolívia? Não sei se podemos chamar de erro diplomático o fato de o governo não ter dado atenção a coisas públicas. Teve até a presença do Evo Morales, já eleito, no Brasil, no programa Roda Viva, na televisão. Tudo isso era praticamente público. Não houve, aparentemente, nenhuma manifestação ao governo boliviano para alertá-lo do risco de tomar certas decisões. Se isso pode ser classificado de erro diplomático, eu diria que sim.
A Venezuela pode estar orquestrando a decisão boliviana? A PDVSA pode substituir a Petrobrás? Se o (Hugo) Chávez está fazendo isso por motivos ideológicos e, entre aspas, bolivarianos, não sei. O que a PDVSA vai fazer na Bolívia, também não sei muito bem. A menos que o Brasil aceite docilmente ver a Petrobrás substituída pela PDVSA e continuar a ser o mercado consumidor do gás boliviano. Somos o único mercado que a Bolívia tem no prazo previsível, de 5, 10, 15 anos.
O Brasil pode usar isso como instrumento de pressão? Acho que sim. É difícil fazer qualquer previsão no momento em que o Brasil declara que praticamente apoiou a Bolívia. É uma mistura de discurso ingênuo e ideológico com uma reação titubeante, timorata. É muito difícil se raciocinar quando se vê coisas que nunca se viu na vida.
O governo brasileiro deveria ser mais incisivo? Já deveria ter sido há muito tempo. Quando o Evo Morales faz algo de tal agressividade, como foi a ocupação de instalações de uma empresa brasileira pelo Exército, como se fosse um ato de guerra, termos uma reação dócil, apoiando a soberania boliviana, é incompreensível. É óbvio que a gente respeita a soberania. Mas isso que é exercer soberania? A relação de dependência é mútua. O Brasil também depende da Bolívia. Por menos tempo. O Brasil teria menos de cinco anos (para reduzir a dependência). Há descobertas importantes na Bacia de Santos, onde a Petrobrás custou a tomar a decisão de investir pesadamente. Não se associou a empresas grandes, multinacionais interessadas em explorar esse gás. Além disso, haveria alternativas aqui dentro. Não seriam alternativas confortáveis. Mas isso, do lado do Brasil, causaria desconforto, um ônus para certas indústrias. Do lado boliviano, seria desastroso. Vão vender gás para quem?
O que resta ao Brasil fazer? Dever-se-ia mostrar ao presidente boliviano que, embora possamos entender alguns arroubos de independência, por motivo de política interna, há limites. No Itamaraty, entramos em paradas duríssimas com países mais poderosos e demonstramos nosso lado.