Título: Câmbio estimula remessas de dólar
Autor: Adriana Fernandes, Gustavo Freire
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/04/2006, Economia & Negócios, p. B1
A valorização do real em relação ao dólar afetou novamente o resultado das contas externas brasileiras em março. A queda da moeda americana estimulou as empresas a acelerar o envio de lucros e dividendos às matrizes. Com o aumento das remessas, o superávit na conta de transações correntes do País ficou abaixo do que o Banco Central (BC) esperava, fechando o mês em US$ 1,35 bilhão.
A conta de transações correntes registra o resultado das exportações e das importações, além de receitas e despesas com serviços (viagens internacionais, fretes e seguros), pagamentos de juros e remessas de lucros e dividendos.
A projeção do BC para o superávit em março era de US$ 1,6 bilhão, mas o valor não foi alcançado porque houve crescimento de 87,3% das remessas de lucros e dividendos em relação a março de 2005. Segundo os dados divulgados ontem, as remessas de lucros e dividendos foram de US$ 1,23 bilhão.
No primeiro trimestre de 2006, já saíram do País US$ 3,6 bilhões em lucros e dividendos, um aumento de 51,5% em relação a janeiro a março de 2005. Já o ingresso de investimentos estrangeiros diretos no País ficou acima do projetado inicialmente e chegou a US$ 1,62 bilhão. Nos primeiros três meses, esses investimentos já somam US$ 3,95 bilhões.
Ao contrário do que ocorreu em janeiro, a alta das remessas no mês passado não chegou a causar maiores preocupações no mercado. "A tendência de crescimento das remessas vem se dando desde o início do ano passado, e não é algo que preocupe", disse o economista Alexandre Sant'anna, da Arx Capital Management.
Para ele, o superávit em conta corrente deve se manter em torno de 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB) até o fim do ano. "O superávit em conta corrente só deverá cair para cerca de 1% do PIB em meados de 2007", comentou Sant'anna. As remessas, no entanto, deverão se manter num nível mensal de US$ 1 bilhão até o fim do ano.
"As remessas de lucros e dividendos continuam vindo pesadas em abril", informou o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes. Segundo ele, até ontem já somavam US$ 1,01 bilhão no mês. Lopes avaliou que, além do real valorizado, que incentiva as remessas, a rentabilidade maior das empresas também tem favorecido o envio dos dólares ao exterior.
Apesar do superávit em conta corrente menor em março, Lopes não vê motivo de preocupação. Ele disse que o superávit acumulado no primeiro trimestre - de US$ 1,79 bilhão (0,82% do PIB) - está em linha com a trajetória projetada pelo BC, que pode até mesmo estar conservadora. Em 12 meses até março, o superávit acumulado é de US$ 13,32 bilhões ou 1,61% do PIB. O BC projeta um superávit na conta de transações correntes de US$ 8,5 bilhões neste ano.
Entre os motivos de tranqüilidade está o resultado da balança comercial, que acumula superávit de US$ 9,341 bilhões, ante US$ 8,305 bilhões no mesmo período do ano passado. Para abril, mês de forte concentração de pagamentos de juros de empréstimos no exterior, o BC projeta superávit de transações correntes de US$ 500 milhões e entrada de US$ 1 bilhão de investimentos estrangeiros diretos. Até ontem, esses investimentos somavam US$ 700 milhões.
Ao divulgar ontem as contas externas, Altamir Lopes chamou atenção para o aumento dos investimentos estrangeiros diretos no setor imobiliário. Ele destacou que esses investimentos têm aumentado bastante e já somam US$ 240 milhões no primeiro trimestre, valor quase igual ao que entrou no País em todo o ano passado, de US$ 290 milhões. De janeiro a março de 2005, esses investimentos somaram apenas US$ 30 milhões.