Título: Lula imita Getúlio, suja as mãos de óleo e critica 'pessimistas de sempre'
Autor: Leonencio Nossa
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/04/2006, Nacional, p. A4,5

Presidente usa discurso em comemoração à auto-suficiência do petróleo para atacar defensores do impeachment

Depois de sujar as mãos de óleo na nova plataforma P-50 em alto-mar, na Bacia de Campos, repetindo um gesto de Getúlio Vargas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comparou a campanha "O Petróleo é Nosso", dos anos 1950, às ações de seu governo nas áreas econômica e social e aos embates com a oposição e a imprensa. Em discurso de 22 minutos durante a solenidade da conquista da auto-suficiência do País em petróleo, no Museu Histórico Nacional, no centro do Rio, Lula atacou os que defendem seu impeachment e disse que o Brasil vive o melhor momento macroeconômico dos últimos 25 anos.

"Hoje, o que fazemos é multiplicar maciçamente as oportunidades na economia e na educação, beneficiando toda a sociedade, especialmente os mais pobres, para alargar cada vez mais as fronteiras da educação, da democracia e do bem-estar social", afirmou. "Essa é a campanha do Petróleo é Nosso da nossa geração, a auto-suficiência do Brasil em cidadania, por ela lutamos até que o País seja verdadeiramente de todos."

Foi no trecho escrito do discurso que Lula fez os mais duros ataques aos opositores. Citou o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, comparando a luta dos inconfidentes mineiros à independência do Brasil em petróleo. "O que os algozes da independência não tinham percebido é que é fácil esquartejar e salgar a carne humana; difícil é quando a idéia é forte e fazer com que essa idéia transpasse o tempo", disse.

Sem citar o antecessor Fernando Henrique Cardoso, Lula afirmou que muitos governos ajudaram a conquista da auto-suficiência em petróleo, mas disse que a gestão petista se esforçou de forma "extraordinária" para alcançar a produção suficiente para abastecer o mercado interno. "Os pessimistas de sempre nunca acreditaram na capacidade do povo brasileiro" , ressaltou. Segundo o presidente, "houve um tempo em que a orientação na Petrobrás era a de não ter ousadia". "Parecia que as pessoas tinham medo de virarem grande."

O discurso estava em simetria com a publicidade do PT, com a exaltação de números econômicos e conquistas de estatais.

Ele leu um artigo publicado por um "importante jornal" nos anos 1950 com críticas à decisão de Getúlio de criar a Petrobrás. "Esse jornal disse que a Petrobrás significaria um desperdício de dinheiro e tempo", relatou Lula. "Vocês percebem que não é diferente de hoje, até porque como os pobres, os poderosos renascem também em seus filhos, e a árvore genealógica continua produzindo essas coisas", disse, sob aplausos de uma claque petista formada por empregados e pessoas ligadas à Petrobrás. À época da criação da estatal, o jornal O Globo do Rio foi um dos que mais criticaram Getúlio.

Ao defender o governo, Lula disse que a inflação caiu, o salário mínimo aumentou e as exportações batem recordes sucessivos há 36 meses. Também ressaltou o pagamento antecipado de empréstimos. "Em vez de contrair novas dívidas, numa bola de neve ingovernável, liquidamos as obrigações e desarranjos que outros fizeram com o FMI."

Antes da solenidade, no início da tarde, Lula viajou de helicóptero de Campos até a P-50. A plataforma somará mais de 180 mil barris por dia à produção nacional. Acompanhado dos presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B-SP), e dos ministros Dilma Rousseff (Casa Civil) e Silas Rondeau (Minas e Energia), ele cumprimentou funcionários da Petrobrás e posou para fotografias. Usando macacão da empresa, capacete e óculos de segurança, abriu a válvula que libera a entrada de óleo e o recolheu com um tubo de ensaio. Lula ainda cheirou o líquido. Depois de mais de 30 minutos na plataforma, o presidente e comitiva embarcaram de volta para o Rio.