Título: Mantega muda discurso sobre superávit
Autor: Rolf Kuntz
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/04/2006, Economia & Negócios, p. B10
No FMI, ministro afirma pela primeira vez que resultado fiscal primário será de 'pelo menos' 4,25% do PIB
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem que o governo brasileiro mantém o compromisso de "gerar pelo menos um superávit fiscal primário de 4,25% do PIB em 2006". A expressão "pelo menos" é novidade. No dia anterior, ele havia dito que os defensores de um resultado primário maior são contrários aos gastos sociais. Na semana passada, numa entrevista ao Estado, ele havia afirmado que só tentaria realizar o superávit "combinado", os 4,25%, e nada mais.
O compromisso de alcançar "pelo menos" aquele resultado foi apresentado na reunião do Comitê Monetário e Financeiro do Fundo Monetário Internacional (FMI), que ontem abriu oficialmente a Reunião de Primavera. O comitê é formado por 24 ministros de países desenvolvidos e em desenvolvimento e funciona, politicamente, como uma espécie de síntese dos 184 associados da instituição. Foi a primeira participação de Mantega como representante do Brasil e de outros oito países de seu grupo.
O discurso de Mantega seguiu o padrão dominante nas discussões dos últimos dias. Ele admitiu que "desequilíbrios globais bem conhecidos" podem quebrar o ciclo de crescimento econômico, se não forem corrigidos a tempo. Para isso será necessário elevar a poupança nos Estados Unidos, tornar mais flexível o câmbio nos países emergentes da Ásia (leia-se: na China) e promover reformas estruturais na Europa e no Japão.
Mantega incluiu também, entre os motivos de preocupação, os altos preços do petróleo e o risco de uma pandemia de gripe aviária - fatores citados nas várias análises de conjuntura divulgadas pelo FMI e pelo Banco Mundial nas últimas semanas.
Na sexta-feira, ele havia dito, numa entrevista, que a preocupação do governo brasileiro com os preços do petróleo era "relativa" e que considerava improvável um ajuste global desastrado.
Ontem, admitiu que o principal problema é a "capacidade de arquitetar uma solução necessariamente coordenada e ordenada, que conduza a um gradual reequilíbrio da demanda mundial". Em linguagem corrente, isso envolve um crescimento chinês mais baseado no consumo e uma economia americana com menor déficit no orçamento e nas contas externas.
Com uma "política fiscal forte", expectativa de inflação de 4,5% e crescimento econômico entre 4% e 4,5% neste ano, o Brasil está preparado, segundo Mantega, para crescer de forma sustentada e participar de um cenário de reordenação da economia mundial - ou, se for o caso, para "enfrentar um caminho mais acidentado até a resolução dos desequilíbrios globais".
No fim do discurso, o ministro reafirmou o interesse do Brasil na criação de um mecanismo de financiamento preventivo, mais acessível e menos burocratizado, para países com bom currículo em política econômica. Seria uma proteção a mais contra choques externos.
A criação desse mecanismo é parte da reforma do FMI, em discussão há pelo menos dois anos. O diretor-gerente do Fundo, Rodrigo de Rato, preparou para esta reunião um relatório com propostas para as novas linhas de trabalho da instituição. As propostas incluem a nova linha de crédito preventivo. O antecessor de Mantega, Antônio Palocci, havia batalhado por essa inovação.
O discurso de Mantega foi mais ajustado aos padrões do debate internacional do que indicavam suas declarações desde a posse no Ministério da Fazenda. Em geral, autoridades brasileiras discutem seus pronunciamentos, em Washington, com os funcionários que representam o País nas instituições financeiras internacionais e habitualmente consideram suas sugestões. Isso pode ter ocorrido mais uma vez.