Título: Entre as ovelhas, a raposa da Máfia
Autor: John Follain
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/04/2006, Internacional, p. A22

Recolhido na casa de um comparsa pastor onde foi capturado dia 11, Provenzano comandava Estado paralelo

Quando Renato Cortese, que por sete anos comandou a caçada ao chefão da Máfia Bernardo Provenzano, finalmente se viu cara a cara com sua presa na manhã do dia 11, o "capo di tutti capi" tentou bater uma porta de metal na cara dele. Para Provenzano, de 73 anos, a chegada de Cortese a seu esconderijo, uma cabana de pastores nas montanhas perto de Corleone, na Sicília, representou o fim da sua vida de 43 anos como fugitivo. Mas ele não desistiria sem uma última demonstração de resistência. Por alguns instantes, o investigador alto de arma em punho e o gângster grisalho de óculos lutaram. A porta ralou os dedos do investigador, mas isso não o deteve. Foi como encontrar um velho conhecido.

"Passei anos olhando para uma foto dele de 1963, a única que tínhamos, para uma projeção feita por computador da aparência que teria hoje e para fotos de parentes. Quando fiquei frente a frente com ele, senti como se já o conhecesse", conta Cortese. "A princípio Provenzano pareceu surpreso, mas depois adotou um olhar quase místico, ficou muito calmo."

Sobre a escrivaninha da cabana, Provenzano, apelidado de "Trator" pelo modo brutal de lidar com os inimigos, tinha cinco Bíblias. E havia sublinhado várias passagens, incluindo esta: "Por que você me chama de 'Senhor, Senhor', e depois não faz o que eu digo?"

O fato de o chefão da Máfia ser aparentemente tão piedoso é só um dos paradoxos deste caso. Para a maioria de nós, Máfia é sinônimo do mundo cheio de glamour de O Poderoso Chefão, repleto de limusines, grandes festas e espertalhões em ternos bem talhados. Neste caso, o chefão até foi pego perto da cidade de Corleone, o nome da família do filme. Mas, em vez de o mais poderoso mafioso do mundo ter aparecido como um patriarca envergando um traje fino, surgiu como camponês atarracado numa casa miserável.

As aparências podem ser enganosas. São os membros da Máfia americana que andam em carros último tipo. A siciliana sempre esteve mais próxima da terra na qual surgiu - começou na Sicília dos Bourbons como um bando de brutamontes contratados para proteger as terras dos proprietários rurais.

Apesar da aparência modesta de Provenzano, não faltam motivos para celebrar sua captura. "Ele era uma instituição, não apenas um chefão", explica Attilio Bolzoni, um especialista na Máfia. "Não chamem Provenzano de fugitivo. Ele ficaria insultado. Quem consegue ficar livre por 43 anos não é um fugitivo, mas uma figura altamente protegida. Ele era como um ministro de governo, o representante de um Estado paralelo."

Uma reportagem recente descobriu que nove em cada dez bares da Sicília pagam um "pizzo" (extorsão destinada à proteção) à Máfia. Isso não vale só para o comércio. O caminho para tudo na Sicília é através da Máfia. Se você precisa de um emprego, vai até o chefe da Máfia local. Uma vaga na universidade? Ele é o homem. O preço? Levar uma mensagem, defender um gângster, etc. Os tentáculos se espalham de alto a baixo, por todas as etapas da vida.

A Máfia é tão penetrante que os juízes que a combatem em Palermo não têm vida social. Levam vidas solitárias, encontrando-se apenas com amigos mais próximos. O menor contato social pode comprometê-los. Existe a sensação de que os próprios caçadores da Máfia se tornam os caçados - em todas as fotos os investigadores usam capuzes ou têm seus rostos borrados. Se a identidade deles for conhecida, serão assassinados.

O Estado não está imune ao poder da Máfia. Ela já eliminou autoridades do mais alto escalão, matando um general e os mais poderosos juízes italianos que a combatiam. O próprio Provenzano foi condenado à revelia a dez sentenças de prisão perpétua por assassinatos, incluindo o homicídio dos juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino em 1992. A Máfia comanda extorsões, tráfico de drogas, contrabando e contratos de obras públicas. No dia 11, muitos italianos disseram não ser coincidência o fato de o chefão ter sido capturado logo depois que Silvio Berlusconi foi derrotado nas eleições. O primeiro-ministro sempre negou ligações com a Máfia (mas um de seus principais lugares-tenentes está recorrendo contra uma sentença de 9 anos de prisão por associação com a Máfia). Em 2005, o principal promotor italiano anti-Máfia disse que Provenzano estava sendo protegido por políticos e policiais, e na eleição de 2001 o partido de Berlusconi conquistou todas as 61 cadeiras da Sicília.

Provenzano acumulou uma riqueza fabulosa. Nos últimos dez anos, a polícia confiscou 6 bilhões em bens do Fantasma de Corleone e seus capangas. Apesar da riqueza, ele vivia como o camponês que fora uma vez.

Uma característica que Provenzano compartilha com seus chefões mais famosos do cinema é a maestria em matar. Sua reputação foi forjada com sangue na noite de 18 de setembro de 1963, na desolada cidadezinha de Corleone (onde mais?). Ele e sua gangue feriram três membros de um grupo rival, mas foi o futuro capo que mostrou sua índole. Provenzano se aproximou das vítimas, encostou lentamente sua pistola na testa de cada uma e foi desferindo os golpes de misericórdia, com uma expressão no rosto que traiu seu prazer em ver o horror nos olhos delas. Esse dia também marcou o início de sua vida de fugitivo, quando se refugiou nas colinas. Mesmo assim, teve dois filhos. E sua brutalidade se tornou lendária. Uma vez, matou um gângster rival com uma pedra e eliminou seu primeiro mentor no crime crivando o carro dele com 112 balas.

A pequena casa de concreto nas montanhas era insuportavelmente abafada no verão, mas Provenzano raramente se arriscava a sair. Nos dias mais quentes, abria uma fresta na porta para entrar ar. Mas passava a maior parte do tempo escrevendo as mensagens que aperfeiçoaram a Máfia, transformando-a numa máquina econômica mais eficiente e pacificando jovens mafiosos que lutavam por dinheiro e poder. Um especialista descreveu a Máfia siciliana como reino das sombras, um Estado dentro do Estado.

No combate a esse Estado paralelo, Cortese tinha de tentar superar a omertà, a lei siciliana do silêncio. "A gente se deparava com a omertà praticamente todo dia. Isto não é como procurar um gângster em Nova York ou Londres. Nas montanhas perto de Corleone, tivemos de seguir os pastores e suas ovelhas sem sermos vistos, e essa é a região onde Provenzano nasceu e cresceu", disse ele.

Finalmente, as freqüentes mensagens manuscritas de Provenzano para a organização deram à polícia uma pista crucial. Um suspeito que se acreditava ser próximo dele conduziu a equipe de Cortese a uma área montanhosa a 3 quilômetros de Corleone. Ali, os policiais passaram a vigiar várias casas, incluindo a cabana de um pastor. Em 9 de abril, os agentes viram uma sacola de plástico branco sendo retirada da casa da família de Provenzano em Corleone. Sua "esposa" (com quem nunca se casou) mora a 2 quilômetros do esconderijo, com um filho dono de lavanderia (o outro filho é professor de italiano na Alemanha). Ela enviava a Provenzano muitos pacotes por meio de confiáveis "carteiros". Um agente fotografou o pacote quando deixou a casa. O lento percurso da sacola foi observado por uma câmera escondida numa colina.

Às 8h30 de 11 de abril, nos arredores de Corleone, Cortese, escondido numa encosta, observou com poderosos binóculos quando o pastor dono da cabana entrou nela com a sacola e saiu de lá de mãos vazias. Cortese estava certo de que Provenzano estava lá dentro. Ordenou que uma van de vigilância fosse trazida ao local. Quando a van se aproximou, Cortese viu o pastor mover-se calmamente na direção da casa. E pensou: "Ele vai avisar o cara lá dentro." De revólver em punho, Cortese e seus agentes correram para a porta de metal da cabana. O homem lá dentro tentou fechá-la, mas Cortese obstruiu a porta com a mão. "Vocês nem podem imaginar o erro que estão cometendo", disse Provenzano a seus captores. Para o chefão, foi um fim triste e miserável para um sangrento reinado.

As janelas da cabana eram cobertas de um filme plástico para impedir que alguém visse os movimentos lá dentro. Ele se alimentava com a comida simples de camponês - no fogão, estava cozinhando chicória - e seu freezer estava cheio de carne e pão. A polícia descobriu que a sacola plástica continha suas roupas lavadas. No armário, 10 mil estavam escondido entres suas roupas íntimas.

A polícia encontrou centenas de bilhetes, cartas e mensagens para sua família e acólitos. As cartas para sua esposa, Saveria Benedetta Palazzolo, começavam sempre com "Meu querido amor" e terminavam com "Sempre gostarei de você". As pequenas exigências do chefão a sua esposa incluíam um pedido para que ela parasse de lhe enviar lasanha e lhe mandasse todo o queijo que ela quisesse.

A maioria de suas comunicações com os gângsteres começava e terminava com referência à proteção divina. "Que o bom Deus nos guie para que façamos boas obras para todos." A Gata, uma detetive da equipe de Cortese, explicou: "Os mafiosos são tão solitários que ler a Bíblia lhes traz algum conforto. É a maneira de eles buscarem perdão pelo que fazem."

Poucas horas depois de sua captura, quando estava sendo embarcado num helicóptero da polícia para ser transferido para uma prisão de segurança máxima no continente, Provenzano virou-se para Cortese, estendeu a mão e disse: "Bom trabalho. Parabéns e adeus." Cortese apertou sua mão. A longa caçada chegava ao fim.