Título: Falta apoio a projeto de segurança
Autor: Andrea Vialli
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/05/2006, Economia & Negócios, p. B16

As empresas brasileiras não investem em segurança pública dentro de suas políticas de responsabilidade social, a exemplo do que acontece em outros países como Estados Unidos e Japão, onde ajudam a combater a criminalidade. Aqui, são poucas as empresas que destinam recursos ou apoiam diretamente os programas de segurança, e muitas das que fazem preferem se manter no anonimato.

"As empresas investem em educação e saúde, que são atribuições do Estado, mas não investem em parcerias na área de segurança pública", afirma Antonio Brasiliano, consultor especializado em gestão de risco corporativo, da Brasiliano & Associados. Estudioso do assunto, Brasiliano afirma que a iniciativa privada poderia ter vários caminhos para colaborar com o Estado nas questões de segurança pública. Além de parcerias com os órgãos de segurança, as empresas poderiam oferecer tecnologias de informação, softwares, know-how. Ou mesmo apoio ao policiamento comunitário. "Mas isso não dá um bom retorno de imagem para as empresas, por isso não fazem. É um assunto desagradável para elas", critica Brasiliano.

O Instituto Sou da Paz, organização não-governamental que atua nas áreas de prevenção à violência e apoio à segurança pública, também sente falta de mais apoio por parte da iniciativa privada. O Instituto criou uma premiação de apoio à polícia comunitária, o 'Polícia Cidadã', já na terceira edição, e os patrocínios oscilam.

Segundo Mariana Montoro, diretora de comunicação do Instituto, os empresários se sensibilizam com a causa, mas preferem não ter seus nomes mencionados. "Muitos empresários doam recursos como pessoa física. Eles têm receio de atrelar o nome da empresa a um projeto de segurança pública, por ser um terreno espinhoso", diz Mariana. No entanto, aos poucos isso começa a mudar, diz ela. Empresas como Bank Boston, ABN Amro Real e Hedging Griffo decidiram apoiar oficialmente o prêmio.

No mesmo caminho segue a Motorola, uma das poucas empresas que investem diretamente no tema segurança pública. Pela própria natureza dos negócios - a empresa é hoje a principal fornecedora de rádios e equipamentos de comunicação para a polícia brasileira - o tema foi encampado pela empresa sem constrangimentos, conta Bruno Nowak, gerente de Soluções para Governo e Empresas da Motorola Brasil.

A companhia firmou uma parceria com a Secretaria Nacional de Segurança Pública e criou uma premiação para iniciativas criativas de policiamento comunitário. Os prêmios, destinados à Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Polícia Civil, vão de viaturas e motos ao fornecimento de equipamentos de comunicação de última geração. Já premiou policiais de estados como Mato Grosso, Goiás, Rondônia e São Paulo.

"A maior recompensa é saber, que dentro do nosso próprio negócio, estamos contribuindo para transformar locais que, antes entregues ao crime, hoje se tornaram mais seguros para a população", diz Nowak.

Outra iniciativa em policiamento comunitário que está dando certo em São Paulo partiu da Câmara Americana de Comércio, a Amcham. Há quatro anos, os dirigentes da Amcham estavam preocupados com os altos índices de ocorrências policiais nos arredores da Chácara Santo Antônio, onde fica a sede da entidade. Com o apoio de empresas instaladas nos arredores, e que também sofriam com a violência, foi traçado um plano de apoio para ajudar no policiamento que já era feito na região.

A Amcham criou uma base para atuação da polícia comunitária e investiu em vigilantes particulares, que ajudam a polícia na ronda da região, com uma frota própria de quatro viaturas e quatro motos. Tem ainda uma linha direta para os moradores comunicarem ocorrências, o número 0800-105589.

"Nunca foi nosso objetivo competir com a polícia, e sim ajudar no monitoramento da área. Por isso deu certo: a criminalidade na região caiu 78% de 2002 para cá", conta Luiz Gustavo Dias Silva, diretor financeiro da Amcham.

As principais ocorrências na região eram furtos, roubo de carros e homicídidos. Agora a iniciativa está sendo levada para Campinas e Recife.

Hoje, além da Amcham, em torno de 70 empresas - como Schering, Oracle, Braskem e Brasilprev - pagam os custos do programa. Para Dias Silva, segurança pública é papel do Estado, mas as empresas podem e devem contribuir.

"As empresas devem investir em policiamento comunitário nos bairros onde estão instaladas. Se fizerem bem feito no seu raio de atuação, o retorno será imediato", diz.