Título: Crise com a Argentina leva Uruguai a atacar bloco
Autor: Marina Guimarães
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/04/2006, Economia & Negócios, p. B9

A crise entre o Uruguai e a Argentina se aprofunda cada vez mais por causa da "guerra das papeleiras" e o Mercosul tornou-se o principal alvo de ataques do governo uruguaio. O vice-presidente uruguaio, Rodolfo Nin Novoa, afirmou ontem que no Mercosul "falta vocação para tomar decisões comuns, e isso faz com que o bloco regional não funcione".

Segundo Novoa, essa é a razão de conflitos como o atual, provocado pela instalação de duas fábricas de celulose (matéria-prima do papel) no território uruguaio, fronteira com a Argentina.

Para o vice uruguaio, a situação "demonstra a fragilidade do bloco" e a decisão da Argentina e do Brasil de que o assunto deve ser solucionado bilateralmente significa "um novo golpe ao Mercosul". As declarações de Novoa foram feitas à imprensa uruguaia após uma solenidade em Montevidéu. No início de abril, o governo uruguaio solicitou a convocação extraordinária de uma reunião do Conselho Mercado Comum (GMC), composto pelos chanceleres e ministros de Economia da Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai.

O pedido foi encaminhado ao governo argentino, que exerce a presidência temporária do bloco, com o objetivo de que o GMC avaliasse os problemas provocados pelos bloqueios das rodovias que ligam o Uruguai e a Argentina. Mas o governo de Néstor Kirchner negou-se à convocação sob a alegação de que o tema é bilateral, decisão que foi respaldada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na reunião que tiveram em São Paulo na terça-feira.

"Não devemos baixar os braços", afirmou o vice-presidente uruguaio, apesar da decisão de Lula e Kirchner. "Temos de continuar brigando nos organismos internacionais, regionais e em Haia", destacou Novoa, confirmando a decisão do presidente Tabaré Vázquez de "não voltar atrás" na autorização às empresas Botnia, da Finlândia, e Ence, da Espanha, para instalar suas fábricas às margens do Rio Uruguai.

"Não há compreensão de alguns países sobre a importância que todos têm e cada um dos que integram o Mercosul", disse Novoa. Segundo ele, se essa atitude não mudar, "dificilmente poderemos concretizar uma integração adequada".

O conflito entre Uruguai e Argentina, iniciado há um ano, é provocado pela construção na cidade uruguaia Fray Bentos, municipio de Rio Negro, de duas fábricas de celulose com capitais europeus, num investimento de US$ 1,8 bilhão, o maior que o Uruguai já teve. A construção fica às margens do Rio Uruguai, limite natural entre ambos os países.

O governo e os moradores da região são contra a construção sob o argumento de que as fábricas contaminarão o meio ambiente, o que é negado pelas empresas e pelo governo uruguaio. Desde dezembro, ambientalistas e moradores realizam protestos com o bloqueio das pontes sobre o Rio Uruguai, que unem os dois países.

No mesmo dia das declarações do vice-presidente do Uruguai, o chefe de Gabinete da Presidência argentina, Alberto Fernández, disse que lamenta "a veemência" do presidente uruguaio Tabaré Vázquez, que "não ajuda nada" a solucionar a crise. Fernández reafirmou que o governo argentino só pede que seja feita uma análise sobre o eventual impacto ambiental das fábricas. A resposta de Tabaré , no entanto, foi negativa. Disse para a "Argentina não se meter nos assuntos uruguaios".