Título: Lula diz que ainda não avaliou crise
Autor: Agnaldo Brito
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/04/2006, Economia & Negócios, p. B8

Lula diz que ainda não avaliou crise Presidente não conversou nem com a Petrobrás sobre os riscos aos investimentos brasileiros na Bolívia

"Não conversei com os empresários, não conversei ainda com a Petrobrás, não conversei com os donos da siderúrgica (a EBX), não conversei com Evo Morales. Até porque ninguém procurou a Presidência da República". Esta foi a resposta do presidente Lula, em São Paulo, ao ser indagado sobre o que o governo fará em relação à crise enfrentada neste momento por empresas brasileiras na Bolívia. Investimentos nacionais no país vizinho podem virar pó ante a atitude hostil do governo Evo Morales em relação ao capital estrangeiro. E o Brasil é alvo nesta ofensiva boliviana.

Além da expulsão e da ameaça de expropriação dos ativos da EBX, a Bolívia pode nos próximos dias nacionalizar os poços de petróleo e gás de todas as companhias petrolíferas que operam na Bolívia, incluindo os da Petrobrás. A estatal brasileira tem US$ 1,5 bilhão em investimentos no país. O Estado procurou a Petrobrás para saber o motivo pelo qual a empresa não pediu auxílio à Presidência da República sobre os problemas na Bolívia, mas não obteve resposta.

O presidente Lula, que participou ontem da abertura do 2º Feirão Caixa da Casa Própria, disse que espera que "as pessoas procurem" a Presidência da República. Ele aguarda uma reclamação formal sobre os problemas de empresas brasileiras na Bolívia. Segundo ele, somente a partir disso o governo entrará na negociação. "Na hora em que as pessoas procurarem, nós vamos sentar (para negociar) e, pode ficar certo, será resolvido", afirmou. Enquanto o presidente Lula aguarda, a crise se desenrola na Bolívia.

Neste momento, uma greve fecha a fronteira entre o Brasil e a Bolívia. A província de Germán Busch, no sudeste do país, retomou ontem a paralisação que havia sido suspensa há uma semana. A região, onde moram 33 mil pessoas, exige que o governo Morales abandone a política hostil aos investimentos estrangeiros, principalmente em relação à EBX. A empresa é acusada pelo governo de infringir dispositivos constitucionais e não atender à legislação ambiental. A EBX nega todas as acusações e diz que jamais recebeu uma única notificação oficial do governo boliviano em relação a tais ilegalidades.

As acusações sustentam uma campanha do governo boliviano contra a empresa que, por causa disso, informou que deixará o Bolívia depois de ter investido US$ 50 milhões dos US$ 148 milhões previstos para a construção de quatro fornos na zona franca. A previsão da empresa era produzir 800 mil toneladas de ferro-gusa por ano.

SEM BRIGAS Lula chegou a considerar justa a disposição do presidente Evo Morales de "defender os interesses que melhorem a qualidade de vida" do povo boliviano. Disse que o governo do colega ainda é "muito novo" e o país vizinho vive uma situação "de pobreza muito grande". Por esta razão ou não, o fato é que o presidente Lula disse que a atitude do governo brasileiro será a de evitar confrontos com os vizinhos sul-americanos.

"Estou terminando o meu mandato e não briguei com ninguém. Quando tomei posse, diziam que eu ia brigar com os Estados Unidos. Nunca briguei com os Estados Unidos. Sempre tivemos uma relação extraordinária. Por que eu iria brigar com Evo Morales? Por que eu iria brigar com o Kirchner? Por que eu iria brigar com o Chávez? Não. Se há divergências, temos de sentar a uma mesa e fazer acordos, é assim que vamos resolver o problema", disse o presidente.

SUPERGASODUTO Lula desconsiderou as críticas do governo boliviano ao supergasoduto que ligaria a Venezuela à Argentina, passando pelo Brasil. O vice-ministro de Hidrocarbonetos da Bolívia, Julio Gómez, disse que a idéia do projeto é uma "maluquice".

Apesar da opinião da Bolívia, o presidente Lula disse que o pais deverá integrar o grupo de nações que pretende investir US$ 23 bilhões na construção do maior empreendimento energético da América do Sul.

Para Lula, se o projeto vingar se tornará o empreendimento do século. "A Bolívia tem de participar. Ela não é apenas parte fornecedora do gás, como a Venezuela. Precisamos trabalhar em conjunto, nenhum país deve ficar de fora", disse. O presidente afirmou que aguarda os estudos de viabilidade econômica do projeto.