Título: Diplomacia de devaneios
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/04/2006, Notas e Informações, p. A3

Decerto à falta de melhor argumento para rebater as críticas à bisonhice da diplomacia lulista - a tentativa de obrigar os relógios do Itamaraty a andar para trás -, os defensores do neoterceiro-mundismo nas relações internacionais do Brasil acusam os seus oponentes de querer instituir "uma política externa do B". Como se a existente fosse do A, de avançada, e não do D, de desastrosa. Ou do I, de irresponsável.

Já não se trata nem de expor a puerilidade, constrangedora para a imagem do País, do patético ensaio de engajar a China e a Índia no traçado de uma nova "geografia econômica", como se compraz o presidente Lula de dizer em seus passeios pelo estrangeiro, com a mesma "quase-lógica" que caracteriza as suas falações ao público interno - e alheio às evidências ofuscantes de que os dois colossos asiáticos desejam, isso sim, instalar-se no centro da geografia econômica da nova ordem mundial, e não dar-lhe as costas.

Deixe-se de lado também o africanismo preferencial do presidente, que o faz tratar como se estadistas fossem ditadores primários de países assolados por toda a sorte de calamidades (além da ditadura), que continuam na mesma situação de antes depois da passagem de Lula por lá. Pelo motivo elementar de que o resgate das devastadas populações africanas depende daquilo que a retórica do dirigente brasileiro não se cansa de vergastar em suas recorrentes incursões pela futilidade - os centros do poder mundial. Se a ONU, que é a ONU, não consegue romper o padrão de avareza e egoísmo do Norte próspero, que dirá o Brasil.

É no entorno do País, a América do Sul, que a política externa do P - de PT - exibe a sua dimensão antinacional por excelência. O qualificativo não é impensado: o protagonismo, como diriam os argentinos, da diplomacia regional brasileira derivada de uma ambição de liderança que tende a provocar entre os vizinhos uma reação de ressentimento de igual intensidade, desserve ao interesse nacional. A omissão de Brasília em face das investidas do boliviano Evo Morales contra a Petrobras é apenas o exemplo do dia dessa aberração.

Embora o Estado brasileiro seja o principal acionista da empresa visada pelo indopopulismo no poder em La Paz, nem o Itamaraty, nem o presidente - reféns, um e outro, dos próprios devaneios ideológicos - saem em defesa do que outra coisa não é se não a soberania nacional. E não se enganem: para o populismo de terceira categoria que grassa em alguns vizinhos - e que não deve ser confundido com o progressismo de Bachelet, no Chile, e Tabaré Vasquez, no Uruguai -, o verdadeiro número uno não é Lula, mas Hugo Chávez, com os seus cofres cheios das rendas do petróleo.

Esses fatos foram há pouco esmiuçados por um dos mais respeitados egressos do Itamaraty, o embaixador Marcos Azambuja. Numa conferência no Instituto Tancredo Neves, do PFL, foi cirúrgico ao apontar a diferença essencial entre a tradição diplomática brasileira e o que o velho jargão petista chamaria "isso que está aí". Historicamente, a política externa era "uma força de aglutinação e convergência de interesses e legítimas ambições nacionais". Hoje, é "o terreno em que, por razões diversas, tendências e objetivos apenas sectários se manifestam".

Dessas tendências, a que mais irrita, por sua ingenuidade, é a de pretender-se a administração "iniciadora ou criadora de processos que já têm longa trajetória", nas palavras de Azambuja, citadas pelo colunista Cristiano Romero, do jornal Valor. Se o sectarismo e a convicção de estar inventando a roda se combinam, reforçando-se perversamente, que sensibilidade, cautela e pragmatismo - termos empregados pelo embaixador - terá Brasília para lidar com a "onda populista" do outro lado das nossas fronteiras a norte e a oeste?

O eixo do atraso de Chávez e Morales desafia o Brasil a "conviver com lideranças de rumo incerto" e a separar "a legitimidade desses governos - democraticamente eleitos - de bandeiras e sentimentos que não são os nossos e que muitas vezes nem sequer nos convêm". O Itamaraty tem quadros de primeira para esse desafio. Mas não tem lugar para eles, muito menos para as suas idéias. Para citar um único exemplo, o Brasil se dá ao luxo malsão de nomear cônsul em Madri o embaixador brasileiro em Santiago e ex-embaixador na ONU, Gelson Fonseca Júnior, porque não faz o gênero dos neoterceiro-mundistas aboletados no Palácio dos Arcos.