Título: Brasil não pode se identificar com excessos populistas, diz embaixador
Autor: Carlos Marchi
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/04/2006, Economia & Negócios, p. B4
Azambuja alerta para início de um ciclo que traz uma carga de exaltação 'felizmente mais retórica que real'
O Brasil deve ter grande sensibilidade para enfrentar o ciclo populista que atinge alguns países sul-americanos, afirmou o embaixador Marcos Azambuja, que integra a estirpe dos grandes diplomatas brasileiros. Ele deu a receita para enfrentar a onda populista: não se identificar "com desmandos ou excessos das lideranças atuais ou futuras" dos países que ela tem varrido.
Azambuja advertiu que uma política externa contaminada por paixões ideológicas "costuma gerar incertezas e desconfianças na comunidade internacional". Ele indicou que as grandes questões de política externa devem receber tratamentos "acima dos interesses setoriais ou partidários" e afirmou que o Brasil não deve se deixar influenciar pela retórica do presidente Hugo Chávez, "cuja gestão incompetente é camuflada pelo boom dos preços do petróleo".
Para o embaixador, o Brasil se distanciou do pelotão de frente dos grandes países emergentes. Ele criticou a fixação do governo Lula em conseguir cargos e posições para o País nos organismos internacionais. Mais expressivo que disputar posições na diplomacia internacional, disse, seria conseguir a categoria "grau de investimento" na avaliação das agências internacionais de crédito. "Não devemos, num jogo oneroso e desnecessário, tentar antecipar aquilo que nos chegará naturalmente, quando formos tudo que pretendemos ser", afirmou ele.
Ex-embaixador brasileiro em Buenos Aires e Paris, ex-secretário-geral do Itamaraty, coordenador da Conferência Rio 92, Azambuja criticou as freqüentes menções do presidente Lula a uma eventual liderança do Brasil na América do Sul. Ele afirmou que essas menções causam desconfianças nos países vizinhos.
Ele criticou firmemente o plano do Itamaraty de incorporar uma massa de novos diplomatas em curto período, afirmando que "somar 400 novos diplomatas em 4 anos é sacrificar a qualidade e provocar o inchamento supérfluo do aparelho do Estado". Eis a entrevista:
Política externa funciona vinculada a alinhamentos ideológicos?
No Brasil, temos uma longa trajetória de racionalidade e prudência, mas o tratamento das grandes questões de política externa deve estar acima de interesses setoriais ou partidários.
Quais os riscos de contágio da política externa por simbologias ideológicas?
Temos sabido evitar que a política externa seja contaminada por personalismos, voluntarismos, amadorismos, emocionalismos e outros "ismos" que, se tolerados, costumam torná-la errática, ziguezagueante e contraditória ou, ao contrário, rígida e inflexível. Uma política externa contaminada por essas distorções costuma gerar incertezas e desconfianças na comunidade internacional.
É certo usar episódios da política externa para apregoar ganhos políticos internos?
Não estou sugerindo que política interna e política externa sejam compartimentos estanques, mas isso não é possível nem desejável. Há muitos terrenos em que as políticas externa e interna interagem com naturalidade. O que devemos evitar é dissipar crédito e prestígio externos para a obtenção de pequenas vantagens políticas ou eleitorais internas.
O presidente Lula se compraz freqüentemente em alardear a liderança do Brasil na América Latina. Isso é bom?
Não precisamos falar de uma real ou suposta liderança brasileira que, a rigor, não estamos desejosos nem de exercer nem de custear. Isso gera ressentimentos e desconfianças. Não é preciso apregoar: basta deixar que os fatos da nossa geografia, da nossa demografia e dos nossos potenciais agroindustrial, científico e tecnológico falem por si mesmos.
O ciclo populista que se expande a nossa volta pode, de alguma forma, influenciar nossa política externa?
Não temos dívidas históricas a resgatar com nossos vizinhos. Não temos ameaças ou cobranças a fazer. Mas o momento requer muita sensibilidade, já que assistimos ao início de um ciclo populista que traz consigo uma carga de exaltação felizmente mais retórica que real.
Como o Brasil deve conduzir sua relação com os países que optaram por essas lideranças populistas?
Será sempre preciso perseguir os nossos interesses com países como a Venezuela, Bolívia, Peru sem nos identificarmos com desmandos ou excessos das lideranças atuais ou futuras desses países. Sobretudo com o atual governo da Venezuela, uma prudente e cordial distância é a melhor opção: desconfio do "bolivarianismo" de Hugo Chávez e da capacidade que ele tem de produzir controvérsias e polêmicas, de causar mal-estar e desconforto a seus vizinhos continentais ou hemisféricos. Fizemos bem em defender a legitimidade democrática na Venezuela quando ela se viu ameaçada. Faremos melhor se nos dissociarmos da retórica cada vez mais estridente de Chávez, cuja gestão incompetente é camuflada pelo boom dos preços do petróleo.
Esses governantes populistas começam a interferir em negócios do Brasil com seus países. Isso não é um problema?
Nossos interesses com a Bolívia são cada vez maiores em conseqüência da presença lá da Petrobrás e de outras empresas brasileiras. Esse conjunto de negócios requer uma relação eficaz e pragmática, também marcada por um prudente e necessário distanciamento de algumas causas do presidente Evo Morales. O Brasil é sócio natural e permanente de seus vizinhos, mas não é interlocutor solidário de eventuais governantes com cujas agendas não temos afinidade.
O senhor concorda com esse conceito de "latinidade" que bordeja nossa atual política externa?
Embora prefira o conceito de América do Sul ao de América Latina, que contém um número acentuado de ambigüidades, acho que não devemos repudiar essa "latinidade", inclusive em sua projeção ibérica, e que devemos construir, sobretudo com o México, uma relação privilegiada. Há mal-entendidos de lado a lado e é pena que as duas maiores economias ao sul dos EUA não tenham identificado ainda os grandes temas de aproximação.
O senhor acha correta a eleição da América do Sul e da África como prioridades da política externa brasileira?
Não tenho nenhuma dúvida de que a América do Sul deva ser o objetivo central das nossas preocupações. O Brasil é uma potência regional, embora com significativas projeções e interesses em escala mundial. A América do Sul é nosso entorno e circunstância. Mas a escolha da África como segunda área prioritária me parece discutível. Não porque pretenda reduzir sua importância, mas porque não consigo atribuir à África um peso maior que aos outros continentes. A escolha da África foi arbitrária. Com tão boas razões, poderíamos apontar a Europa, a Ásia ou a América do Norte como áreas igualmente prioritárias. O volume de nossas transações, interesses e intercâmbio com essas outras áreas é muito maior do que o que temos com o continente africano e nada indica que isso vá mudar.
A política externa do presidente Lula tem sido criativa?
Existe uma tendência um pouco ingênua e não menos irritante da atual administração - a de pretender-se iniciadora ou criadora de processos que já vêm de longa trajetória. É natural que cada governo busque aparecer como inventor de algumas, senão de todas as rodas. Registro minha impaciência com esse comportamento, que sugere que nossa História não conta ou não houve e que o Brasil, com uma trajetória de mais de cinco séculos, teria sido inventado ontem. A política externa, como expressão da identidade profunda da Nação e do Estado, se fortalece quando apresentada não como invenção do momento, mas como uma formulação atualizada de interesses e objetivos que vêm de longe, que vão longe e que foram amadurecidos por uma longa experiência e reflexão.
Foi correto lançar o Brasil em disputas nem sempre bem sucedidas de cargos e posições internacionais?
O presidente Lula herdou um Brasil mais forte, estável, racional e maduro. Com isso, foi possível, aproveitando o seu temperamento expansivo, continuar uma linha de projetos para elevar a hierarquia do Brasil na vida internacional. Defendo a pretensão brasileira a um assento permanente no Conselho de Segurança, a integrar um G-8 ampliado e a se aproximar cada vez mais da OCDE. Minhas reservas são de método e procedimento: não podemos nos tornar reféns de nossas ambições e candidaturas. Não devemos, num jogo oneroso e desnecessário, tentar antecipar aquilo que nos chegará naturalmente, quando formos tudo que pretendemos ser. No momento, nossa diplomacia sofre de hiperatividade. Poderíamos e deveríamos ser mais seletivos na seleção de nossas ambições e candidaturas.
A insistência na candidatura ao Conselho de Segurança da ONU foi um bom caminho para o reconhecimento internacional?
Aprecio a criação do G-20, mas não creio que devamos insistir no "processo eleitoral". Mais importante seria transmitir à comunidade internacional, através de um crescimento robusto e sustentado, que somos um país essencial para a construção e a consolidação da paz e da segurança internacionais. Isso feito, nossas credenciais se tornarão ainda mais eloqüentes, até que, em determinado momento, vamos ser convocados a assumir o lugar que nos espera.
O Brasil está perdendo a disputa entre os grandes países emergentes?
Infelizmente, sim. O Brasil não perdeu o rumo, mas perdeu velocidade e se distancia do pelotão dos grandes países emergentes. Temos de recuperar o espaço perdido para China, Índia e Rússia, com os quais somos comparados.
O senhor considera importante o reconhecimento do Brasil como um país confiável e seguro para investir?
É importante que o Brasil busque a categoria de "investiment grade" (grau de investimento) na avaliação das agências internacionais de crédito. Nada simbolizaria melhor a nossa confiabilidade. Esta pode ser uma bandeira e um desafio para a próxima administração brasileira.
Que outras providências são essenciais para nos tornar mais confiáveis?
A política nuclear brasileira deve responder às novas inquietações provocadas por Irã e Coréia do Norte. Para preservar nossa credibilidade devemos assinar os protocolos adicionais do Tratado de Não-Proliferação, tranqüilizando a comunidade internacional e resguardando o nosso programa de enriquecimento de urânio para fins exclusivamente pacíficos. É importante e urgente a revalorização do Tratado de Cooperação Amazônica. Sua sede, em Brasília, opera com poucos recursos e baixa visibilidade. Podemos transferi-la para Belém ou Manaus, dando-lhe meios humanos e materiais adicionais e usar, no âmbito da proteção dos nossos interesses amazônicos, o regionalismo, em contraposição ao universalismo. Por fim, devíamos indicar ao secretário-geral da ONU que nosso contingente deixará o Haiti em data certa, quaisquer que sejam as circunstâncias. O processo de recuperação daquele país será, na melhor das hipóteses, longo e incerto. Nós já demos a nossa contribuição. Agora é hora de anunciar a partida.
O Mercosul tem avançado, a seu ver?
O Mercosul deve ser equipado para acolher novos sócios e enfrentar novos desafios. Precisa de um grau maior de institucionalização e parece-me esgotado o ciclo da sua informalidade. Há um déficit de idéias que sejam, ao mesmo tempo, realistas e visionárias. Mas precisamos tratar futuras possibilidades de associação - sobretudo à Alca - com um realismo rigoroso, sem nos deixar levar pela ingenuidade ou pela paranóia. Os interesses devem ser identificados e defendidos com objetividade. Não podemos transformá-los em causas contaminadas por considerações ideológicas em que predominem a paixão e a emoção.
A diplomacia brasileira está bem equipada para enfrentar esses desafios?
Essencialmente, sim. A resposta reside no aperfeiçoamento dos quadros existentes, e não na sua acelerada ampliação. Somar 400 novos diplomatas em 4 anos é sacrificar qualidade e provocar o inchamento supérfluo do aparelho do Estado.