Título: Erramos e PCC cresceu, diz Deic
Autor: Rita Magalhães
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/05/2006, Metrópole, p. C1
No depoimento secreto que deram na quarta-feira à CPI do Tráfico de Armas, o diretor do Departamento Estadual de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic), Godofredo Bittencourt Filho, e o delegado Ruy Ferraz Fontes admitiram que o PCC se espalhou pelo País por um erro cometido pelo governo de São Paulo, que transferiu os "bandidos mais perigosos" do grupo para prisões em outros Estados, plantando a "sementinha" da organização pelo País afora. A portas fechadas, Ferraz avaliou: "Está muito difícil desmontar essa estrutura."
Os dois policiais traçaram um perfil do líder do PCC, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e revelaram detalhes da estrutura e do funcionamento da facção criminosa, com destaque para as ramificações na sociedade. Confirmaram até que o grupo pretende eleger deputados para defender interesses no Congresso.
Segundo os policiais, há pessoas dentro das operadoras de telefonia celular contribuindo para o crime organizado. As reclamações de falta de cooperação das operadoras nas ações da polícia, ao não informar a localização de telefones que estão interceptados, e o "desdém" com as solicitações do Deic ocuparam grande parte da sessão reservada. Para os delegados, celular na cadeia é mais perigoso do que dez fuzis na rua.
Parte do depoimento foi divulgada ontem pelo site Congresso em Foco, que teve acesso a 31 páginas, de um total de 64, com a transcrição integral da sessão. Nessa parte que veio a público não há referências à transferência de presos nem que a polícia tinha informações de estarem sendo preparadas rebeliões. "Não li, não vou ler nem confirmo o depoimento", reagiu ontem o presidente da CPI, deputado Moroni Torgan (PFL-CE), a respeito da publicação de parte do conteúdo da sessão reservada na internet. Torgan anunciou que pediu que a Polícia Federal investigue o vazamento do depoimento. O presidente da CPI afirmou que as declarações continuam secretas porque, do contrário, o depoimento poderá ter implicações jurídicas para depoentes.
A transcrição mostra vários momentos em que Torgan verifica se não há possibilidade de outras pessoas ouvirem a reunião reservada e a sua preocupação para evitar vazamentos. "Os advogados do PCC estão aí fora", afirmou. "Eles não podem de jeito nenhum ouvir o que está acontecendo aqui dentro", continuou. Apesar de tantos cuidados, minutos depois de terminada a sessão, o ex-funcionário de empresa que presta serviço à Câmara Arthur Vinícius Pilastre Silva entregou a cópia do depoimento aos advogados, segundo ele próprio confessou. Veja a seguir os principais trechos do depoimento:
COMO O PCC SAIU DE SP
"O principal motivo foi que um dos líderes em 2000 foi removido para lá (Mato Grosso do Sul), por causa de uma rebelião em São Paulo, e ele plantou a sementinha, a ideologia do PCC lá", observa Ruy Ferraz.
O delegado admite no depoimento a dificuldade de combater o PCC. "A organização é muito séria mesmo e a tendência é crescer, porque a gente acaba não tendo como, não conseguindo atingir o objetivo principal que é desmontá-la, porque está muito difícil desmontar essa estrutura."
CELULARES
"Nós temos uma luta muito grande com as operadoras para que isso (uso dos celulares) não venha a acontecer. Não estamos conseguindo êxito nisso. Estamos reclamando", afirmou Bittencourt. Ele diz que mais de 70% dos seqüestros, das extorsões mediante seqüestro em São Paulo são comandados de dentro da cadeia, por celular.
Bittencourt conta que os aparelhos entram nas penitenciárias pelos advogados e parentes dos presos. E diz que as operadoras alegam dificuldades tecnológicas e na legislação para impedirem o uso de celulares na prisão. "O governo dá a concessão e acho eu que ele tem condições de fazer que na legislação a operadora cumpra isso, mas está na mão dela. E, pior que isso, neste caso que está aqui, temos envolvimento de pessoas da operadora.
O delegado Ruy Ferraz sugere que seja exigido da operadora que agregue ao sistema a tecnologia necessária para fornecer à polícia a localização do telefone que está interceptado. Segundo ele, dessa forma vidas poderiam ser salvas. "Eles têm a possibilidade de oferecer esse serviço comercialmente e oferecer para a polícia prender o seqüestrador que está com o sujeito no cativeiro, e eles não dão."
O EXÉRCITO DO PCC
De acordo com os delegados, são 140 mil filiados ao PCC nos presídios e 500 mil ou mais do lado de fora, incluindo os parentes. "Eles estão hoje programados inclusive para fazer eleições de políticos", afirmou Bittercourt. Segundo depoimento de Ferraz, a facção criminosa arrecada do tráfico em diversos pontos de de drogas. "Eles arrecadam dos sócios ou dos associados que estão na rua R$ 550,00 e arrecadam R$ 50,00 de quem está dentro da cadeia." A receita bruta mensal seria de R$ 750 mil, em dados de oito meses atrás, quando o tesoureiro do PCC foi preso. "O que eles faziam? Parte do dinheiro eles destinavam a empréstimo a grupos que pertenciam ao PCC, para que eles investissem na prática do crime", afirma Ferraz.
"Estava lá lançado assim: Fulano de Tal vai fazer um roubo; ele precisa de R$ 20 mil. Eles faziam um empréstimo para o cara de R$ 20 mil. Aí ele fazia o roubo e devolvia com juros e correção monetária para o caixa do PCC. Isso era lançado também na devolução. E ele dava as saídas: pagamento de ônibus das visitas, o quanto era pago de ônibus das visitas, compra de armas - e vinha lançado lá qual a arma comprada, quanto foi pago por aquela arma e onde está a arma custodiada, com quem, em nome de quem a arma está custodiada e assim por diante", afirmou.
ORGANIZAÇÃO
Na seqüência, explica a organização. "Ele (o PCC) funciona assim: ele (Marcola) é o principal líder e ele elegeu um representante em cada região de São Paulo. Cada representante tem poder sobre aquela região. E (...) ele dividiu a capital em quatro áreas de influência, está certo? É sul, norte, leste, oeste. E tem um representante em cada área, que determina tudo o que acontece ali. Determina de quem ou como é que vão ser comercializados entorpecentes. Quando o crime é cometido, decide qual é a parte que cabe ao PCC. E cada um deles é encarregado da tesouraria, de fazer a arrecadação. Antigamente, era um tesoureiro central; hoje são quatro ou cinco, para que a polícia não consiga atingir, como atingiu a Tesouraria no passado (...). Ele descentralizou isso daí. Ele repassa a ordem através de quem os visita. Nunca por telefone celular. Nunca. Se ele for pego falando em telefone celular, ele é pego falando bobagem, coisas triviais. A ordem é repassada ou através da visita ou através do advogado."