Título: Em Somerville, brasucas recebem apoio do prefeito
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Fonte: O Estado de São Paulo, 02/05/2006, Internacional, p. A10
Brasileiros juntam-se a mexicanos, hondurenhos e venezuelanos
Paulo Sotero
Cerca de mil imigrantes brasileiros juntaram-se ontem suas vozes à de mexicanos, hondurenhos e venezuelanos e cantaram God Bless America no centro de Somerville, um subúrbio da grande Boston. Embalados pelas músicas cantadas em espanhol pela panamenha Ana Lucia Vlieg Paulin, pelas orações do padre gaúcho Valmor Scaravelli, da paróquia de Santa Ana, em Everett, e de vários pastores das igrejas evangélicas que freqüentam, os brasucas participaram das manifestações do "dia sem imigrantes" com uma intensidade que surpreendeu os mais céticos.
"Eu estou impressionado, não apenas pela extensão da adesão ao boicote ao trabalho, mas pela discussão que aconteceu antes na comunidade, que foi muito substantiva", disse o médico Eduardo Siqueira, professor da Universidade de Massachusetts em Lowell que se especializa em segurança no trabalho de imigrantes. "A mensagem da protesto foi compreendida, provocou boas discussões e fez com que as pessoas participassem sabendo o que estavam fazendo."
As lojas do centro de Framingham, várias delas de brasileiros, amanheceram com as portas fechadas. "As que abriram, como a Padaria Brasil, fecharam no começo da tarde e dispensaram os empregados, para que pudessem participar das manifestações", contou Fausto Mendes da Rocha, diretor do Centro do Imigrante Brasileiro e um dos organizadores da mobilização em Massachusetts. "Várias lojas de americanos também fecharam ou deram ponto facultativo aos empregados imigrantes, em solidariedade", contou. O mesmo aconteceu em Everett, Marlboro, Allston e nos vários subúrbios de Boston, onde vive um número estimado de 150 mil a 200 mil brasileiros. A distribuição do jornal Boston Globe, que é feita em sua maioria por brasileiros, foi afetada.
Mário Alves, de 27 anos, mineiro de Governador Valadares, compareceu à manifestação realizada no fim da tarde no Parque Foss, no centro de Somerville, enrolado numa bandeira brasileira. Veio para os EUA com a mulher, seis anos atrás e trabalha hoje como cozinheiro do TGI Fridays de Everett. "Muita gente trabalhou, de medo de perder o emprego, acho que precisamos nos organizar mais, mas essa manifestação é um bom começo", disse.
Outra que foi ao Parque Foss pedir pelos direitos dos imigrantes foi Marilda Alves, funcionária pública licenciada da cidade mineira de Iapu que chegou há apenas 10 meses, pelo México. Marilda aderiu ao boicote e descansou ontem de seu novo ofício de faxineira. Ganha em dois dias e meio de trabalho o equivalente ao salário mensal de 400 reais que ganhava no Brasil. "Eu amo muito meu Brasil, mas estou aprendendo a amar a América", disse a petista militante. "A gente aqui tem mais oportunidades, o nosso trabalho é mais valorizado do que no Brasil", explicou Marilda, de 42 anos, que é divorciada e deixou os quatro filhos, já crescidos, para tentar a vida na América. "Quero ficar aqui três ou quatro anos, o tempo suficiente para juntar um dinheiro para construir minha casa em Iapu, mas o que eu queria mesmo é poder ir e voltar quando quisesse, porque gosto muito da América."
"Eu sou filho de imigrantes italianos. Metade de nossos habitantes veio de mais de 50 países e aqui vocês são todos bem-vindos, são todos cidadãos de Somerville", disse em inglês o prefeito de Somerville, Joseph Curtatone, comunicando-se com os brasucas por meio de um intérprete. "Os brasileiros são parte de nossa diversidade e dão uma contribuição extraordinária à cidade", disse ao Estado. Segundo o capixaba Fausto Mendes da Rocha, os organizadores dos protestos medirão nos próximos dias o efeito que o "dia sem imigrantes" produzirá sobre a Casa Branca e o Congresso. O objetivo é forçar a discussão da reforma das leis de imigração de forma que permita a legalização gradual dos cerca de 12 milhões de ilegais já no país. "Se o debate no Congresso não for adiante, haverá um novo dia de protesto, no fim de maio", informou.