Título: 'É óbvio que presidente está em campanha'
Autor: Ardilhes Moreira
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/05/2006, Nacional, p. A4
Apesar de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva continuar negando que tenha decidido se candidatar à reeleição, o número de viagens que tem feito não deixa a menor dúvida de que está sim em campanha. Essa é a avaliação da oposição e também de juristas especializados em legislação eleitoral.
Na tarde de sábado, em encontro no Palácio da Alvorada com o jogador da seleção brasileira Roberto Carlos, o presidente voltou a dizer que ainda não decidiu se será ou não candidato à reeleição. Mas, como mostrou ontem reportagem do Estado, Lula já deu o equivalente a uma volta e meia na Terra só em viagens aéreas pelo País desde janeiro e gastou R$ 4 milhões em recursos públicos com suas viagens. "É óbvio que ele está em campanha. Todo governante, do momento em que assume o cargo, só pensa 'naquilo', na reeleição. O maior sinal de fracasso é perder uma reeleição", analisa o advogado Torquato Jardim, ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral.
"O pior é que ele insiste em dizer que não está em campanha. Imagina se estivesse", ironiza o senador José Agripino (PFL-RN). O líder do PFL no Senado afirma que o presidente está gravando imagens para campanha e se fazendo lembrar pelo interior do País e não para realmente inaugurar obras. "Lula vai lançar pedra fundamental ou anunciar intenção de obra, mas não vai inaugurar nada substancial. Vai apenas dar presença física", diz Agripino.
Torquato Jardim explica que é muito difícil caracterizar as viagens como campanha irregular - apenas em julho começa oficialmente a campanha eleitoral. "Seria necessário analisar caso a caso, verificar se a razão da viagem é algo que está sendo preparado há algum tempo, se a inauguração ou lançamento naquela data está seguindo um cronograma natural ou não para então saber se há ostensivamente uma antecipação com razões eleitorais." Torquato explica que falta ao País uma cultura de reeleição e que ainda não se sabe lidar com as diferenças entre o legítimo exercício do cargo e o uso eleitoral.