Título: Governo já avalia peso na inflação
Autor: Fabio Graner, Denise Chrispim Marin
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/05/2006, Economia & Negócios, p. B5
Gás natural da Bolívia deve ficar mais caro, mas Fazenda ainda não sabe qual o efeito no controle de preços
O governo não sabe dizer se a decisão da Bolívia de nacionalizar a produção de gás natural e impor novos preços aumentará a inflação no mercado interno. "Ainda não sabemos", limitou-se a dizer o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao ser questionado sobre o assunto.
É dado como certo, porém, que o preço do gás natural vindo da Bolívia vai subir. Quanto, não se sabe. Na avaliação de diplomatas, há risco de o novo preço ser alto a ponto de criar problemas para o abastecimento no Brasil. Por outro lado, técnicos da área de energia avaliam que há uma certa defasagem no preço do gás e algum aumento no preço pode ser absorvido.
"O texto tornou inviável a operação da Petrobrás no país, como ressaltou a própria companhia, mas também pôs em risco o suprimento do mercado brasileiro", afirmou uma fonte da diplomacia brasileira. "O decreto saiu bem pior do que imaginávamos e contrariou as promessas feitas publicamente pelo presidente Evo Morales." O diplomata referia-se à visita do líder cocaleiro ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 13 janeiro, 9 dias antes da posse.
O Decreto 28.701 não menciona o acordo bilateral de compra e venda, que estabelecia parâmetros para a definição do preço do gás natural exportado ao Brasil - um volume de 24 milhões a 30 milhões de metros cúbicos diários.
Entretanto, ao determinar que cabe ao governo boliviano fixar o preço do gás natural, o decreto implodiu o acordo e abriu caminho para La Paz reajustar os preços segundo os seus critérios.
"O mercado para o gás boliviano no Brasil foi criado a partir desse acordo bilateral e dos subsídios concedidos para a redução do preço do combustível aos consumidores finais", disse o diplomata. "Se os novos preços não atenderem ao mercado consumidor, a tendência será a busca de novos fornecedores e a mudança gradual para outro combustível." Circulava ontem pelo governo um cálculo mostrando que o preço do gás está a menos da metade do preço do petróleo. A energia gerada por um barril de petróleo, que custa US$ 70, é a mesma gerada por uma quantidade de gás que custa US$ 32.
INFLAÇÃO Os efeitos diretos do novo preço do gás sobre a inflação serão pequenos. "O peso do gás sobre o IPCA é de apenas 0,08%", disse o economista do grupo de conjuntura econômica da UFRJ, Carlos Thadeu Filho. Além disso, o gás é utilizado por setores da indústria que têm peso pequeno sobre a inflação, como o de cerâmica, por exemplo.
O impacto mais forte será indireto. "Os restaurantes que usam gás poderão aumentar seus preços." Se isso ocorrer, o efeito sobre o IPCA será mais elevado. "O peso dos alimentos fora do domicílio no IPCA é de 5%."