Título: A tragédia do real valorizado
Autor: Alberto Tamer
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/05/2006, Economia & Negócios, p. B12

Roubo o título do artigo de Delfim Netto, no Valor de terça-feira, por ele ser muito oportuno, franco e estar bem documentado com dados do FMI. Delfim afirma que "a economia brasileira tem um problema gravíssimo e de solução muito difícil: a 'supervalorização' da taxa de câmbio ocorrida nos últimos dois anos". Vou mais longe, gravíssimo e aparentemente sem coragem do governo para enfrentá-lo. Falam que é preciso passar por isso, que alguns precisam ser sacrificados, que temos superávits comerciais, mas ou estão escondendo-se da realidade ou, por efeitos políticos e técnicos, recusam-se enfrentar o que todos dizem: o real está excessivamente valorizado, afetando muito as exportações.

TRAGICAMENTE ATRASADOS Delfim mostra em um quadro com dados do FMI o seguinte:

1 - Entre 1985 e 2002 a taxa média de crescimento das exportações brasileiras aumentou 4,8%; a da China 15,2% e a mundial apenas 6,8%;

2 - Entre 2003 e 2005 a taxa média do Brasil aumentou 25,2%, a da China nada menos que 32,8% e a mundial saltou para 11,6%! O comércio mundial explodiu e fomos nos arrastando pelas ribanceiras. A causa principal continua sendo o entrave cambial. Só este ano o real apreciou-se 10,7% diante do dólar, 17,4% em 12 meses.

PERDEMOS PARA A ARGENTINA Uma loucura, tendo em vista que o crescimento da economia depende muito das exportações, pois estamos perdendo investimentos diretos até para a Argentina. Muitas empresa nacionais estão reduzindo a produção impossível de exportar, despedindo empregados indo embora ou mudando mercados. Um exemplo: a Peugeot Citrõen transferiu para a filial da Argentina as exportações para o México, de produtos que iriam sair daqui!

É BEM MAIS GRAVE Antônio Corrêa de Lacerda, do Departamento de Econômica da PUC-SP, levanta uma nova questão mais importante a médio prazo. Um real valorizado está tornando mais rentável para as empresas importar do que produzir no Brasil. "Estamos vivendo um perverso processo de substituição da produção local por importações (com o dólar desvalorizado sai mais barato importar), de deslocamento de centros de exportação para outros países e provocando perdas de investimentos externos estrangeiros. Além disso, perdemos para outros países projetos que poderiam estar vindo para o Brasil."

E volto à minha afirmação pétrea: não investe, não cresce. A conseqüência é o empobrecimento do Brasil diante dos outros emergentes.

E O BOOM EXPORTADOR??? Também aqui Lacerda insiste numa explicação bem conhecida. O tão louvado boom exportador das exportações de commodities. "A valorização das commodities no mercado internacional tem levado a uma percepção equivocada no Brasil de que a valorização cambial não tem provocado estragos. Como os preços dos produtos primários estão mais elevados, a receita em dólares daí gerada permite um significativo saldo comercial. Isso distorce a análise."

A conclusão da coluna é clara: com a retomada do Japão e o aumento da demanda chinesa elevando os preços de matérias-primas, o Brasil vai voltar a ser um exportador primordial de commodities e produtos agrícolas, de baixo valor agregado, que criam pouco emprego. É em parte por isso que estamos crescendo menos do que outros países emergentes, com a China exportando agora produtos de ponta.

Tem mais. A China importa matéria-prima do Brasil, industrializa-a e nos vende o produto industrial acabado a preços que nossas indústrias não podem competir.

Os economistas do governo sabem disso, mas continuam apregoando os grandes êxitos das exportações (pouco mais de 1% da mundial...), o superávit comercial e decretam: a política cambial não muda!

OLHEM PARA ELES! Lacerda reconhece que o câmbio não é a única causa, há outros custos, logística, juros, impostos, etc. também relevantes, mas a valorização do real é o fator decisivo e, acrescenta, "os chineses, como vários outros competidores, usam a desvalorização do câmbio como fator de competitividade".

Mas os gênios do Planalto continuam jurando que o dólar vai se ajustar ao mercado, que a política cambial não muda, mas esquecem de lembrar que os resultados são lentos e deixarão, como já estão deixando, atrás de si uma indústria arrasada e um desemprego crescente.