Título: Irã rejeita 'chocolate' de europeus
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Fonte: O Estado de São Paulo, 18/05/2006, Internacional, p. A11

Ahmadinejad compara benefícios a doces para crianças e diz que seu país jamais desistirá de programa atômico

O presidente do Irã, Mahmud Ahmadinejad, demonstrou ontem desdém pelo plano europeu de oferecer incentivos a seu país para que desista do programa de enriquecimento de urânio, visto com suspeita no Conselho de Segurança (CS) da ONU e na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Ele comparou a proposta dos europeus a docinhos para enganar crianças.

Ao mesmo tempo, divisões entre os membros permanentes do Conselho de Segurança (França, Grã-Bretanha, Rússia, China e EUA) levaram ao adiamento, por uns dez dias, de uma reunião prevista para amanhã em Londres, na qual seria discutido o pacote de benefícios e sanções a ser apresentado aos iranianos. Porta-vozes do governo britânico disseram que a meta é "aprofundar os preparativos". Mas diplomatas envolvidos nas discussões afirmaram que os EUA querem que seja explicitado que se o Irã não aceitar os incentivos será submetido a duras sanções. A questão das sanções divide o CS, pois Rússia e China, detentoras de poder de veto, se recusam a apoiar sanções contra o Irã.

O Irã sustenta que seu único objetivo é enriquecer urânio para usinas de energia elétrica, mas o CS teme que o país tenha planos de desviar esse combustível para armas atômicas.

Na terça-feira, diplomatas da Grã-Bretanha, França e Alemanha e funcionários de primeiro escalão da União Européia haviam antecipado que entre os benefícios seria incluído um reator de água leve e o apoio à entrada do Irã na Organização Mundial de Comércio (OMC).

"Vocês pensam que estão lidando com uma criança de 4 anos para quem podem dar algumas nozes e chocolates e receber ouro em troca?", perguntou Ahmadinejad em um discurso para milhares de pessoas na cidade de Arak, televisionado para todo o país. Em Arak está sendo construído um reator nuclear de água pesada, que permite obter plutônio para fabricar uma bomba atômica.

O presidente iraniano repetiu, com ênfase, que o Irã não aceitará nenhuma suspensão ou encerramento das atividades relacionadas ao enriquecimento de urânio. "Não seremos enganados duas vezes", disse Ahmadinejad, referindo-se às negociações com os europeus em 2003. Ahmadinejad ainda voltou a advertir que o Irã pode retirar-se do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP).

A crise sobre o programa nuclear iraniano agravou-se em 2003. Nesse ano, a AIEA acusou o Irã de ter ocultado por 18 anos instalações nucleares secretas, contrariando seu compromisso com o TNP. Pressionado para prover informações sobre seu programa nuclear, o Irã concordou, então, em suspender suas atividades de pesquisa nuclear e iniciar negociações com os países europeus.

O diálogo fracassou em agosto, quando os europeus deixaram claro que seu objetivo era oferecer benefícios tecnológicos e econômicos para que o Irã desistisse de enriquecer urânio. O Irã retomou, então, as atividades nucleares e em abril anunciou ter começado a produzir urânio enriquecido a 3,5%.

O urânio enriquecido entre 3,5% e 5% é usado como combustível para reatores de geração de eletricidade. Ele se torna adequado para armas nucleares quando enriquecido em um nível superior a 90%, o que demanda um nível tecnológico muito mais avançado, que levará anos para ser alcançado pelo Irã, dizem peritos.