Título: Dinheiro só sairá do caixa no próximo governo
Autor: Fabíola Salvador, Fabio Graner
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/05/2006, Economia & Negócios, p. B9

O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Bernard Appy, afirmou ontem que o impacto nas contas do governo da liberação de R$ 1 bilhão para a comercialização de soja só ocorrerá em 2007. Ele explicou que em 2006, os compradores de soja (comerciantes, cooperativas e indústrias) receberão o valor do prêmio das opções de venda concedidas aos agricultores via crédito no sistema financeiro.

Quando pagarem os produtores, as indústrias poderão recorrer aos bancos para financiar o pagamento do prêmio de até R$ 6 por saca, explicou o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Ivan Wedekin. "As indústrias pagam aos produtores e ficam credoras do governo, mas elas terão financiamento a juro do crédito rural (8,75% ao ano)", disse Wedekin.

"Do ponto de vista de caixa, o impacto (para os compradores) é zero, pois o compromisso de pagarem preço adicional será compensado pelo financiamento feito por meio do sistema nacional de crédito rural", completou. O Conselho Monetário Nacional (CMN) autorizará, no fim do mês, essa linha de crédito.

Appy negou que o governo esteja faturando politicamente com algo sobre o qual, na prática, não vai arcar com os custos. "Não é uma medida eleitoreira, é uma resposta à grave crise do setor rural. É perfeitamente possível de se fazer", afirmou Appy.

Apesar de só sair do caixa do governo em 2007, os recursos liberados vão entrar no orçamento de 2006. Appy explicou que vão para os restos a pagar - compromissos assumidos em um ano e saldados no orçamento seguinte. " Isso está sendo feito dentro da lei", afirmou.

Para a economista do Banco ABN Amro Zeina Latif, apesar de não ser desejável, a transferência da despesa para o ano que vem não é o problema. "A questão é a ajuda em si. Os setores da economia precisam saber como lidar com a volatilidade de preços. Quando o câmbio esteve favorável, não houve movimento inverso do governo", disse Zeina.