Título: Ex-prefeita acha que derrota de 2004 foi senha para vencer agora
Autor: Ana Paula Scinocca
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/05/2006, Nacional, p. A6
Marta afirma que sempre consegue ver o lado bom das coisas
Ela diz que sempre vê o lado bom das coisas. "Quando eu perdi a eleição para a Prefeitura (em 2004), fiquei muito triste. Mas pensei: 'Vai ver, era para eu ser candidata ao governo mesmo'", conta a ex-prefeita Marta Suplicy, voz rouca, convalescendo de uma gripe a algumas horas da prévia que responderá se seu instinto estava correto. Vontade não falta. Desde o ano passado, ela percorreu 175 cidades das pouco mais de 600 onde o PT está representado.
Marta não dispensou nem reuniões com pequenos grupos de militantes, com menos de 30 pessoas. "Se eu ganhar a prévia, ganhou a base, porque a base está comigo", resumiu. Na sexta-feira, a ex-prefeita foi recebida na sede da Sociedade Amigos do Bairro de Ferrazópolis, em São Bernardo do Campo, e esteve em Suzano.
Apesar do notável esforço para desqualificar o argumento do adversário, o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante, de que é o preferido do presidente Lula, ela assumiu o discurso de que representa no PT a antítese do voto de cabresto. O senador tem vantagem de folga entre prefeitos, parlamentares e dirigentes da sigla.
Convencida de que será escolhida hoje pelos companheiros de legenda, sustenta que "não gostaria" que sua vitória fosse interpretada como uma derrota do presidente. A última leva de folhetos e cartazes da sua campanha trazem uma foto de Lula erguendo a mão da ex-prefeita. E os dados de pesquisas de intenção de voto que registram vantagem média de 10 pontos porcentuais sobre os resultados de Mercadante.
Em Ferrazópolis, num salão apertado, ela ouviu o depoimento emocionado dos quatro vereadores petistas da cidade. Inclusive do mais antigo da história do partido. Metalúrgico, colega de Lula no movimento sindical, José Ferreira foi eleito pela primeira vez em 1982. Está no sexto mandato. "O Mercadante tem seu valor, mas não tem a proximidade que a Marta tem com a militância. Ela olha para a gente, não através da gente."
Ali, no meio da tarde de sexta-feira, a ex-prefeita não arrematou votos novos. Dedicou-se a pedir o empenho dos militantes na boca-de-urna. "Precisamos muito do trabalho de todo mundo." Tirou fotos e cumprimentou quase todos os militantes reunidos no salão.
IMPACIÊNCIA
Só demonstrou alguma impaciência quando um morador do bairro, notadamente alcoolizado, tentou várias vezes interromper o discurso. "Companheiro, deixa eu falar." Depois a própria platéia se encarregou de conter o ânimo do moço.
De São Bernardo, ela seguiu para Suzano, onde tem o apoio do prefeito Marcelo Cândido. Apenas ele está com Marta. "Acredito que os prefeitos estejam com o Mercadante talvez por sua atuação como intermediário de projetos no governo. Isso é muito pouco para mim. A Marta tem experiência", afirmou Cândido.
Depois de uma rápida reunião reservada com o prefeito, foi homenageada com um lanche para 20 pessoas num pequeno buffet improvisado.
Se na sexta-feira em nada a ex-prefeita fez jus à fama de antipática, não descuidou um minuto da própria imagem. Vaidosa, pediu que não fosse fotografada enquanto devorava, às 19h30, um sanduíche de tomate seco. E não dispensou um pedaço de bolo de sobremesa.