Título: Uma epidemia de partos prematuros
Autor: Lígia Formenti
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/05/2006, Vida&, p. A26
Estudos apontam aumento preocupante na antecipação do nascimento por comodismo e confiança na tecnologia
O especialista em saúde materno-infantil Cesar Victora é taxativo: o Brasil vive uma epidemia de partos prematuros. O fenômeno, tão preocupante quanto a escalada da obesidade em crianças, já é parcialmente captado pelas estatísticas oficiais.
Números do Ministério da Saúde demonstram um aumento importante de nascimentos antecipados em algumas regiões, sobretudo nos Estados do Sul e Sudeste. "Mas há subnotificação. O problema é maior do que se pensa", afirma Victora, convidado pelo ministério para traçar uma nova forma de fazer uma estatística sobre o assunto.
O interesse pelos partos prematuros se justifica. Quanto mais nascimentos antes da data prevista, maior o risco de mortalidade infantil. "Bebês que nascem antes de a gravidez completar os 9 meses são mais frágeis. Têm maior risco de infecções, apresentam complicações respiratórias", observa o diretor do Departamento de Análise de Situação de Saúde do ministério, Otaliba Libânio de Morais Neto.
FERTILIZAÇÃO ASSISTIDA As razões para o aumento do número de partos prematuros ainda não estão totalmente esclarecidas. Há quem atribua o problema à expansão da fertilização assistida - que aumenta a chance da gravidez de gêmeos ou trigêmeos. Nesses casos, geralmente o parto é antecipado. Outra hipótese sempre lembrada é o grande número de cesáreas.
Para o epidemiologista Aluísio Barros, que participa com Victora de um grupo que faz um estudo de segmento com crianças nascidas na cidade gaúcha de Pelotas nos anos de 1982, 1993 e 2004, o fenômeno tem outra explicação: o aumento dos partos prematuros está associado aos procedimentos médicos adotados ao longo da gestação.
O estudo de Pelotas mostrou um aumento preocupante de partos prematuros entre 1982 e 2004. Na primeira análise, partos antes de a gravidez completar 38 semanas (definição de parto prematuro) correspondiam a 6,3% do total. Em 2004, 15,3% nasceram antes do prazo considerado ideal.
"Mas, na nossa amostra, não conseguimos ver uma relação entre a cesárea e a prematuridade", afirmou Barros. Para pesquisadores, o problema na cidade gaúcha é provocado pela mudança na forma de o médico atuar. "Há uma confiança excessiva dos profissionais na tecnologia", completa.
Médicos se fiam no exame de ultra-som, por exemplo, para definir o tempo de gestação. O problema, diz, é que o exame não é totalmente preciso. Ao lado da confiança exagerada no ultra-som, obstetras hoje adotam uma postura mais flexível com relação ao prazo da gravidez. "Se há qualquer problema com a gestante, eles preferem realizar o parto, a partir da 38ª semana", afirma Barros, que é professor da Universidade Federal de Pelotas.
Mas, como o exame não é preciso, muitas vezes, a criança nasce prematuramente. "Em vez das 38 semanas acusadas no ultra-som, o bebê pode ter 36, 35." O nascimento antecipado aumenta o risco de problemas para o bebê. No mínimo, ele perde uma oportunidade preciosa para se desenvolver e ganhar peso.
Obstetra da ONG de Saúde Reprodutiva Ipas Brasil, Jefferson Drezett admite haver tal mentalidade. "Há a falsa idéia de que se corre mais risco em retardar o parto do que em adiantá-lo", afirmou. O que nem sempre é correto. Drezett concorda não ser rara a ocorrência de partos prematuros desnecessários, justamente porque o médico confiou no exame de ultra-som.
MAPA ASTRAL O presidente do departamento científico de neonatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, Paulo Nader, concorda que erros induzidos pelo ultra-som não são incomuns. Mas ele acrescenta que a maior flexibilidade de médicos quanto às 38 semanas de gestação também pode ser causada pela comodidade. Do médico e da paciente.
" Tem de tudo: médico que não quer trabalhar no fim de semana, mulher ansiosa para livrar-se do peso comum do fim da gravidez e até mesmo datas de parto marcadas de acordo com o mapa astral", afirma.
Para atender aos pedidos das mães e ficar com uma agenda bem azeitada, obstetras acabam aumentando a margem de manobra para o parto. Consideram aceitável antecipá-lo em até duas semanas, teoricamente um período em que o bebê já está bem formado. "Se algum problema surge, médicos preferem logo fazer o parto, em vez de tentar prolongar um pouco mais a gestação", relata Nader.
A tática pode ser bem-sucedida entre pessoas com maior poder aquisitivo ou com acesso a um bom serviço de saúde. "Há uma tecnologia eficiente nas UTIs neonatais. Grande parte das vezes, os problemas são contornados", afirma Barros. Mas, para pessoas menos favorecidas economicamente,essa lógica não se aplica. "A mortalidade de prematuros é significativamente maior."
QUEDA ESTANCADA No trabalho de que Victora e Barros participaram, foi feita uma constatação assustadora. O aumento dos partos prematuros - e dos riscos que os acompanham - fez estancar os índices de mortalidade infantil, que estavam em queda. "O mais lógico seria que os índices continuassem caindo, afinal, a assistência à saúde melhorou ao longo destes anos." Mas não foi o que ocorreu. Pelos cálculos dos pesquisadores, a mortalidade deveria estar em 6 por mil nascidos vivos em 2004. Metade do que foi registrado: 11,7 por mil nascidos vivos.
"É importante que médicos se conscientizem disso. Em termos de saúde pública, a excessiva flexibilização na antecipação do parto traz prejuízos importantes. A estratégia pode dar certo em um caso. Mas somente quando analisamos o conjunto é que se vê como a medida é perigosa", completou.
O chefe da UTI Neonatal da Maternidade São Luiz, Luis Carlos Bueno Ferreira, afirma que parte dos bebês atendidos na UTI neonatal poderia perfeitamente ter nascido no tempo correto. "Alguns profissionais marcam a data da cesárea já na primeira consulta. Um erro de cálculo pode trazer problemas sérios", afirma. Ele observa, por exemplo, que crianças que nascem com 34, 35 semanas podem apresentar insuficiência respiratória transitória.