Título: Câmara vai apurar elo de deputados com quadrilha
Autor: Sérgio Gobetti
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/05/2006, Nacional, p. A12

Corregedor começa a analisar documentos enviados pela Justiça; servidores acusados são alvo de processo

O presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B-SP), abriu ontem investigação para apurar o suposto envolvimento de deputados e de servidores da Casa no desvio de dinheiro público por meio de compra superfaturada de ambulâncias para diversos municípios do País. O corregedor da Câmara, Ciro Nogueira (PP-PI), começa a analisar hoje os documentos encaminhados pela Justiça de Mato Grosso e, ontem mesmo, a Diretoria-Geral da Casa abriu processo contra servidores acusados.

A investigação do esquema pela Operação Sanguessuga da Polícia Federal resultou na prisão de 48 pessoas, entre ex-deputados, assessores parlamentares, empresários e servidores do governo federal, na semana passada.

Nos documentos encaminhados ao corregedor da Câmara estão nomes de 53 deputados e o do deputado cassado Ronivon Santiago (PP-AC), preso pela PF. Ciro Nogueira deverá fazer uma triagem na lista, separando os deputados contra os quais há indício de envolvimento dos parlamentares que tiveram apenas os seus nomes citados.

"Eu recebi manifestações de deputados e alguns deles inclusive afirmaram que nem emendas fizeram para ambulâncias e cujos nomes apareceram no documento", disse Aldo Rebelo. "Mas acho que o deputado Ciro Nogueira e a Corregedoria têm todas as condições de examinar e fazer justiça. A corregedoria recebe e examina documentos desta natureza porque é sua atribuição regimental."

Nogueira deverá analisar também a possibilidade de requerer a degravação dos diálogos registrados pela PF nas investigações, já que a Justiça não enviou as fitas nem o texto completo das gravações que envolvem os deputados - apenas trechos das conversas obtidas com autorização judicial.

Há três integrantes da Mesa na lista encaminhada pela Justiça. "A Mesa da Câmara, como todos os demais deputados, está subordinada à hierarquia dos órgãos da Casa, para tratar deste tipo de denúncia que é a Corregedoria", afirmou Aldo, argumentando que os integrantes da Mesa são subordinados às mesmas regras impostas aos demais deputados e que o tratamento será o mesmo.

Ontem, o terceiro secretário, deputado Eduardo Gomes (PSDB-TO), citado na lista, disse que vai se declarar impedido de participar de reuniões da Mesa nas quais esse assunto for debatido. Ele concordou com a atitude de Rebelo de enviar os documentos para o corregedor.

Eduardo Gomes fez um levantamento das emendas que apresentou ao Orçamento e afirmou que, durante todo seu mandato, fez sete emendas destinando recursos para compra de ambulâncias - que foram adquiridas pelos prefeitos em cinco empresas diferentes das que estão envolvidas nas investigações da PF. "É o momento de dar satisfação e estabelecer a realidade", afirmou.

O segundo secretário da Mesa, o deputado Nilton Capixaba (PTB-RO), presidiu ontem por quase uma hora a sessão da Câmara. Em um dos momentos, Capixaba teve de ouvir o deputado Luiz Couto (PT-PB) pregar a punição dos envolvidos na Operação Sanguessuga e condenar a impunidade. Francisco Machado Filho, assessor de Capixaba, foi preso pela PF.

De acordo com as investigações, o assessor de Capixaba era um braço do esquema na Câmara. Diálogos gravados pela PF com autorização judicial revelam o assessor de Capixaba e o empresário apontado como um dos chefes do esquema sugerindo o assassinato de um repórter do Correio Braziliense que investigava o esquema de compra superfaturada.